Luis de Filippis e o universo familiar em Something You Said Last Night

Afeto, compreensão e conflitos familiares foram as temáticas exibidas na sessão de abertura do 20º IndieLisboa, com o filme Something You Said Last Night, o primeiro longa-metragem da realizadora Luis de Filippis. A produção franco-canadense foge extraordinariamente do lugar demasiado recorrente onde as obras sobre pessoas trans, em diversos casos, inserem-se.

As noites quentes passadas em um resort compõem o cenário das férias de Ren (Carmen Madonia) e sua família. Somos inseridos no ambiente familiar de Ren logo no começo da narrativa como uma espécie de voyeur. Após um breve instante de tensão causado pela perda momentânea de um vape e pela impaciência com a matriarca, Mona (Ramona Milano), notamos a relação de afeto e turbulência, que culmina em um plano dos quatro membros da família sentados à beira da estrada a dividirem um lanche.  

A noção de voyeurismo é construída pelos planos feitos em câmera na mão, presentes na maior parte do filme, e pelas escolhas de enquadramento, quando os personagens por vezes localizam-se em segundo plano. Nos momentos de tensão, a escolha pelos primeiros planos transfere sublimemente para nós a apreensão das personagens, sentimo-nos sufocados assim como elas. 

A narrativa de Something You Said Last Night caminha em um percurso diferente daquelas vistas dentro do cinema queer. Não há conflitos com a família relacionados à transição. O processo já ocorreu. Ren é uma mulher trans aceita, amada e apoiada por seus familiares. Os embates aqui ocorrem em outras esferas. Ela lida com o amor, a rejeição e a frustração com o trabalho em um ambiente que não dispõe de uma rota de fuga. Embora tente escapar, Ren sempre volta para ele e, no final, relembra a importância desse regresso.

Something You Said Last Night, de Luis de Filippis © JA Productions, Cinédokké Sagl

Luis de Filippis então opta por trazer ao centro do debate os problemas de relacionamento existentes em qualquer relação de pais e filhos. Essa escolha apresenta um novo ponto de vista, onde família, acolhimento e perdão são o cerne da vida de Ren. Recorda-nos que as vivências, sentimentos e experiências vão além dos acontecimentos que atravessam o processo de transição. Something You Said Last Night é um filme que – embora os personagens já tenham passado da adolescência- apresenta uma atmosfera de amadurecimento comum em obras coming-of-age. Uma obra que dialoga com toda a juventude e uma referência para o cinema queer.

Durante o IndieLisboa, conversamos com a realizadora acerca de suas influências, opiniões e perspectivas sobre o filme e o cinema queer.

Entrevista com Luis de Filippis no IndieLisboa

Luis de Filippis © Mar Marriott

Lílian Lopes (LP): Primeiramente, parabéns pelo filme! Quero começar perguntando o que te motivou a retratar uma narrativa sobre as férias de uma família – apresentando suas relações complexas -, misturando traços do cinema coming-of-age e de road movie, no seu primeiro longa-metragem?

Luis de Filippis (LdP): Acho que Something You Said Last Night pega a deixa do meu curta-metragem For Nonna Anna, sobre uma mulher trans e relação com a sua avó italiana. As duas mulheres estão a passar por questões de consciência corporal e Chris, a personagem principal [de For Nonna Anna], está a entrar em si mesma e realmente começa a sentir que está se vendo, quando se olha no reflexo do espelho. Sua avó está a perder o senso de identidade. E é realmente sobre duas mulheres a verem-se e a olharem suas experiências refletidas uma na outra, não sobre Chris ser trans ou ser aceito por sua família – todas essas coisas já aconteceram. É realmente uma questão de “Ok, e agora? O que acontece depois da transição?”. Eu diria que Something You Said Last Night é semelhante a isso. Não é sobre Ren se assumir, não é sobre sua transição, é realmente sobre seu relacionamento com sua família. No filme, acho que ela é uma filha, ela é uma neta, ela é uma irmã. Ela é todas essas coisas primeiro e ela é uma mulher trans depois. Para mim era importante retratar isso porque simplesmente não vemos o suficiente, as pessoas estão muito obcecadas com a mecânica da transição. Eu só queria contar uma história diferente.

LP: Como os acontecimentos de sua vida influenciaram na construção do filme? A família tem ascendência italiana, então imagino que você tenha se inspirado em alguns elementos pertencentes à sua própria experiência.

LdP: Sim, a família do filme é parecida com a minha família. Não são exatamente réplicas – o que minha mãe sempre me diz, porque ela odeia a personagem de Ramona -, mas acho que são representações de pessoas da minha família. São um mosaico das pessoas da minha vida. Minhas tias, meus primos, minha irmã, meu irmão, meus pais… “mais uma vez, não conte isso para minha mãe”. Em minha experiência, eu queria retratar uma família que apenas aceita, ama, apoia e aborrece – quero dizer, isso também faz parte. Penso que só queria contar uma história diferente. A gente vê sempre a mesma, sobre a aceitação das famílias, e eu queria contar a história de uma menina que já foi aceita. Quando conversei com a minha família, falei com a minha avó e ela disse “não é grande coisa, Jesus ama a todos e eu vou cuidar do resto da família”. E é essa energia que queria retratar.

LP: Embora Something You Said Last Night seja um filme de ficção, também é autobiográfico. A sua experiência pessoal é também a experiência de Carmen Madonia? Ela, como personagem e atriz trans, espelha-se em você como mulher trans e cineasta?

LdP: Então Carmen e eu tivemos a sorte de trabalhar nesse papel por quase um ano e meio – dois anos – junto a um mentor de atuação. Então, naquele tempo, nós realmente nos conhecemos muito bem e percebemos que nossas vidas eram muito parecidas. A forma como crescemos, ela também é ítalo-canadense, além disso, tinha um relacionamento muito próximo com sua avó. Isso é muito engraçado: nós duas fomos para o National Ballet of Canada e não nos conhecíamos, mas fomos para aquela escola. Então havia todos esses paralelos em nossas vidas. Mas há diferenças, eu diria, em Carmen que precisei colocar na personagem de Renata. Uma das principais coisas é o vape dela. Originalmente, ela nunca deveria usá-lo, mas ao longo de um ano e meio de trabalho, ela sempre usou esse maldito vape. Eu fiquei tipo “isso é um trejeito de personagem interessante e divertido”. Obviamente, ela de facto se apoia nisso de algumas maneiras, então acabei escrevendo a história e agora é do género “como esse personagem pode não ser uma consumidora de vape?”. Então, sim, foi uma união entre alguns dos elementos em mim, alguns dos elementos nela e meio que juntamos tudo para chegar a Renata.

LP: Apesar dos conflitos, o filme fala muito sobre o apoio e o perdão familiar. Pode nos contar sobre a importância desses sentimentos associados à história de personagens comumente marginalizadas?

LdP: Agora estamos em um momento em que vemos mais personagens marginalizados, o que é ótimo. Entretanto, por outro lado, também estamos a ver muitos personagens marginalizados a serem colocados em um pedestal. Confere-se um status de herói quando eles não são. Eles não têm falhas. E para mim foi muito importante mostrar um personagem que é trans, mas nem sempre foi uma boa pessoa, nem sempre faz as escolhas certas. Então, organicamente, há os temas como perdão, apoio e amor. Eu acho que quando você conta uma história autêntica sobre uma pessoa de uma maneira humana, esses elementos saem naturalmente. Outra coisa também, eu acho interessante que você não sabe como é essa família fora dessas pequenas férias. E realmente gosto que a única corda salva-vidas deles para ter qualquer tipo de vida social seja um ao outro. Então suas vidas se tornam muito pequenas e isoladas naquele momento. E a questão da família é que essas são provavelmente as pessoas que podem te irritar mais, porque elas sabem exatamente quais botões apertar. Portanto, acho que por um lado há muito aborrecimento e por outro há muito perdão, porque você não pode ficar chateado com as únicas pessoas que você conhece durante as férias. Para mim, há muito disso na história.

LP: Em relação à pergunta anterior e ao começo da entrevista, tanto nesse filme quanto em For Nonna Anna, você traz personagens trans, porém, colocando o foco mais na relação familiar do que nessa questão. O que te impulsionou a trazer essa visão diferenciada?

LdP: Acho que estou entediado com histórias sobre transição para ser honesta. Eu somente acho chato. Nós entendemos, nós sabemos disso, do género, vamos contar outras histórias. E então eu acho que quando você conta outras histórias, isso dá às pessoas outras opções. Acredito que se você conversar com Carmen sobre esse papel, ela vai dizer que mudou sua vida porque ela pôde ver uma versão de si mesma, uma versão da realidade que ela poderia ter. Ela poderia ter um relacionamento próximo com sua irmã, ela poderia ter um relacionamento próximo com sua família, mas ela só percebeu depois de trabalhar nisso por tanto tempo. Eu dei a ela uma opção diferente do que ela sempre foi programada para ver.

LP: Quais são as dificuldades associadas com a produção de filmes com personagens e temas como este?

LdP: Acho que em todas as etapas recebemos muitos “nãos”. Quando eu escrevi recebi muitos “nãos”. As pessoas não conseguiam ver como o filme iria acabar, não conseguiam entender, do género “se você tem uma personagem trans porque ninguém está falando sobre ela ser trans?”. E eu recebi muitas perguntas sobre isso, muitos questionamentos como “você pode escrever mais?”. Quero dizer, “não, não posso escrever isso”. Mesmo depois dessa fase, quando o filme está pronto e à sua frente, ainda há muitas perguntas acerca do por que não falar sobre mais. Acho que, de certa forma, é um bloqueio, especialmente para os distribuidores americanos. Acredito que eles têm dificuldade com isso, para ser honesto. Penso que outro desafio em fazer cinema trans é o de não ser somente sobre as pessoas na frente da câmera, é importante ter pessoas trans atrás também. Então, neste filme, criamos uma mentoria e convidamos cinco jovens trans para virem ao set e estarem conosco desde a pré-produção até a produção – eu queria que também estivessem na pós-produção, mas não estavam. Isso significava que havia presença trans em todos os departamentos. 

Eu não percebi isso na época, mas depois que tudo acabou, Carmen veio até mim e disse “obrigada por fazer isso”, porque significava que quando acordasse de manhã, ela saberia que ao sentar-se na cadeira de maquiagem, haveria uma garota trans para maquiá-la. Quando ela estava vestindo-se, sabia que tinha uma garota trans a vesti-la. Quando ela estava no set, sabia que havia uma garota trans atrás da câmera. Sabíamos que havia mulheres trans em toda a equipe, acredito que esse tipo de escolha levou ao filme que você vê na tela.

LP: Então, a última pergunta: quais mudanças você acha que ainda precisam ocorrer tanto no contexto de narrativa quanto de produção no cinema queer?

LdP: É uma ótima pergunta para a minha última resposta. Novamente, acho que estamos vendo mais representação queer na tela. Porém, ainda estamos atrasados quando o assunto é atrás da tela, mesmo ao fazermos o que podemos para levar as pessoas ao set. Mas então é do género, e quanto aos tomadores de decisão? E as pessoas que financiam os projetos? E as pessoas que compram os projetos? 

Chegamos ao ponto onde podemos fazer os filmes que pedimos, mas agora a questão ainda é a de como fazer estas produções chegarem às audiências que pediram por elas? Eles ainda são os porteiros que estão a paralisar os filmes de serem vistos, amados e exibidos ao redor do mundo, porque eles acham que é um risco muito grande. Eu penso que esse seja  o próximo nível em representação queer, trans e pessoas de cor. É como “ok, vamos colocar mais dessas pessoas não apenas atrás da câmera e na frente da câmera, mas também na mesa, na tomada de decisões sobre o que acaba por ir para os cinemas”.

Lílian Lopes

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