CINENOVA 2022 – SESSÃO #8

Há um profeta nas Olaias, tenham cuidado! (2021)

de Lucas Camargo de Barros

Há um profeta nas Olaias, tenham cuidado! (2021), de Lucas Camargo de Barros © Direitos Reservados

Portugal, 1911. A implantação da República traz consigo a liberdade religiosa e a aceitação de diversidade de credos. Na mata, A Brasileira traz de volta os mortos — quando não consegue ressuscitar uma criança, apaixona-se por sua mãe e faz disso sua missão. Um filme mudo, salvo alguns murmúrios e lamentos que lhe oferecem uma aura assombrada enfatizada pelo azul monocromático, Há Um Profeta Nas Olaias, tenham cuidado! é um filme de amor e de mortos que junta tradicional e moderno num passado quimérico.

Kenia Pollheim Nunes

Os Tempos Conturbados (2021)

de Carlos Alberto Tavares Pedro

Os Tempos Conturbados (2021), de Carlos Alberto Tavares Pedro © Direitos Reservados

Censura, medo e uma nova realidade. Através das palavras de Filomena Lopes, regressamos organicamente a uma Angola recém-independente e a todo o seu poder monumental, capacidade destrutiva e esperança transformativa. Ritmicamente, um conjunto de fotografias agem enquanto testemunhos de um passado vivido, harmonizando o som da voz com a sua potência visual. Assim, Os Tempos Conturbados percorre esta experiência coletiva ao salientar uma das várias histórias pessoais que dela fizeram parte. Dando uma cara aos eventos e aos sentimentos, Carlos Pedro abre um baú geracional de desalento e frustrações, criando um ambiente para, como Filomena espera, os seus espectadores “saberem o que é que é Angola! Mas as histórias verdadeiras.”

Margarida Nabais

Isthmus, a Narrowing of Land (2022)

de Mara Chavez

Isthmus, a Narrowing of Land(2022), de Mara Chavez © Direitos Reservados

“Somos os frutos do vento – e fomos semeados, regados e cultivados pela sua mestria.”

Uma História Natural do Vento, Lyall Watson, p. 18

Em Isthmus, a Narrowing of Land, a câmara aparentemente móvel de Mara Chavez, obedece a um único princípio de movimento – o vento. Amorfo, invisível, o vento é a mais vital das presenças para as populações indígenas Zapotec e Ikoots, que habitam Isthmus, e sem ele não podem sobreviver. Sob a ameaça da exploração capitalista do seu território, que invade o horizonte da imagem com eólicas, alegadamente motivada pela procura de energias sustentáveis, a luta destes povos tem no mar e na terra, fontes essenciais da sua subsistência, os seus maiores aliados. A poética visual, aliada à experimentação sonora, deixa ecoar no filme, como num sussurro de um segredo que o vento anuncia, a sabedoria ancestral indígena sob o risco do seu desaparecimento junto com o desaparecimento da terra que dá solo ao seu povo.    

Cátia Rodrigues

Love, Death and Everything in Between (2022)

de Soham Kundu

Love, Death and Everything in Between (2022), de Soham Kundu © Direitos Reservados

O luto é das mais dolorosas e marcantes experiências humanas, um movimento simultaneamente consciente e inconsciente do confronto com a finitude, sendo por isso, uma extensão, ou projecção, da nossa própria morte. Assim, a morte de um filho é sempre prematura, sendo esse luto, o mais inaceitável de todos. A partilha do luto não o facilita, porventura ainda o complica, pois nem todos lutamos do mesmo modo. Esta batalha, antes de ser partilhada, é individual — este é o movimento tripartido do filme, a confluência de três lutos distintos: a mãe, o pai e a namorada. Cada um, primeiro, de seu modo individualizado, atende às suas próprias feridas, sofre a sós, para apenas depois sofrer em conjunto. Nessa reunião da dor e da ausência, encontramos a renovada vontade da presença, por fim o gesto de paz e silêncio possíveis. 

Diogo Albarran

Lugar Nenhum (2021)

de Pedro Gonçalves Ribeiro

Lugar Nenhum (2021), de Pedro Gonçalves Ribeiro © Direitos Reservados

A voz silenciosa que paira sob a aura azul magnética de Nowhere conduz-nos num solilóquio partilhado, atingido por uma avalanche de perguntas que se instalam num deserto de respostas. Perante a colouer des notre rêves, aqui coletivizando o tal quadro de Miró, há um espaço infinito de introspecção, de liberdade para questionar a própria liberdade e a melancolia que esta inerentemente acarreta dentro do espaço queer. Cada passo dado em frente aparenta impulsionar um novo obstáculo, estendendo o caminho a percorrer num túnel solitário.  

Assim, meditando sobre o estado da identidade dos homens gay no novo milénio, Pedro Gonçalves Ribeiro desvenda com este filme-ensaio as contradições e ambiguidades que vêm com ela, a sua representação nos media, a prática do cruising e até uma simples música. É a evocação de um apelo extenuado, mas intimorato, pela aceitação e a manifestação da diferença. Tudo, evidentemente, ao som da eterna questão de Cher – Do you believe in life after love?

Margarida Nabais

Parceria com o CINENOVA – Festival de Cinema Interuniversitário Português 

[Foto em destaque: Lugar Nenhum (2021), de Pedro Gonçalves Ribeiro © Direitos Reservados]

CINENOVA 2022 – SESSÃO #7

Espelho Eu (2022)

de Beatriz Alves Ribeiro

Espelho Eu (2022), de Beatriz Alves Ribeiro © Direitos Reservados

A primeira curta-metragem de Beatriz Alves Ribeiro é uma fantástica estreia, que revela desde imediato um grande domínio imagético, rítmico e crítico. O filme confronta a noção de ser mulher nos anos 70 em Portugal, a partir dos livros Enciclopédia da Mulher, tecendo uma profunda crítica a uma imagem absurda e desajustada aos padrões de hoje. A crítica é, de certo modo, autossuficiente, no sentido em que a mera recontextualização dos livros para os dias de hoje é suficiente para perceber o absurdo dos padrões e expectativas que tornavam a mulher um ser dependente – da casa, dos filhos, do marido, da família, etc. A mulher era assim apresentada de um modo serviçal – compreendendo-se a mulher perfeita como uma fada do lar. Partindo do passado e ajustando-o ao presente, o filme questiona também essa mesma evolução, o que é ser mulher hoje e o que será amanhã. Será possível um futuro livre dos fantasmas do passado-presente?

Diogo Albarran

Punkada (2022)

de Gonçalo Barata Ferreira

Punkada (2022), de Gonçalo Barata Ferreira © Direitos Reservados

É no meio de um descampado com uns barracões, onde está estacionado um velho e podre autocarro, que Punkada decorre. Os décors, adereços e guarda-roupa remetem para outra década do século passado, procurando retratar o quotidiano decadente dos Biqueira d’aço, uma banda punk em autodestruição. 

Tentando fazer jus ao conteúdo da história, o filme tenta também ser punk na sua forma. Disperso em sequências desconexas, num fluxo de imagens onde salta à vista a película 16mm, Punkada serve-se de um bom domínio da técnica (recorde-se que o filme é uma produção da Universidade Lusófona) para enfatizar a energia da banda e guiar o espectador num delírio musical.

Ricardo Fangueiro

Night By Night (2021)

de Jules Mathôt

Night By Night(2021), de Jules Mathôt © Direitos Reservados

A noite é azul e a lua é amarela. Night By Night poderia ter sido inspirado no quadro “A Noite Estrelada” de Van Gogh, para onde a nossa mente divaga naqueles que são os planos de animação artesanal do filme: as ruas e os prédios noturnos. À la Janela Indiscreta de Hitchcock, o filme revisita o cinema noir e inspira-se em filmes americanos de culto.

Um detetive privado é contratado para investigar um pianista misterioso. O ver e ser visto são as questões essenciais deste filme, que destaca objetos que servem para espiar (ver ainda mais) como binóculos, e outros como um revólver, um rádio, um telefone, e uma máquina de escrever. Há uma preocupação do realizador em destacar os aspectos visuais do filme, quer os seus objetos, quer as suas cores. E são as próprias cores que fazem a ponte com a música jazz, se pensarmos nos quadros, com destaque para a cor azul e amarela, de Piet Mondrian. O jazz contribui para a estética do noir, e é parte essencial da personagem que o detetive espia.

Night By Night apoia-se e inspira-se em muitas referências fortes e reconhecíveis do espectador, o que o torna apetecível aos olhos deste.

Inês Moreira

In a kinda ordinary system (2021)

de Mikołaj Piszczan

In a kinda ordinary system (2021), de Mikołaj Piszczan © Direitos Reservados

Como seria nascer e morrer na Polónia, durante o regime comunista da 2ª metade do séc. XX? E como seria o intervalo entre o choro inaugural e o suspiro final?

Na tradição do cinema russo da década de 1920, In a kinda ordinary system é uma sinfonia, não da cidade, lembrando Dziga Vertov, mas da existência mais simples, desde o seu primeiro momento até ao seu inevitável desaparecimento, naquele que foi possivelmente o mais complexo dos regimes políticos e sociais. Realizado inteiramente a partir de imagens de arquivo, a montagem, herdeira e aprendiz do cinema de Sergei Eisenstein, deixa entrever pelos diferentes estádios da vida as contingências impostas pelas ideias de ordem, disciplina e obediência que regiam a relação entre o cidadão e a sociedade comunista polaca. Haveria à data outro modo de lhes escapares que não caminhar em linha recta em direcção à morte, na esperança de um recomeço, em liberdade, para e do comunismo? 

Cátia Rodrigues

Parceria com o CINENOVA – Festival de Cinema Interuniversitário Português 

[Foto em destaque: Night By Night(2021), de Jules Mathôt © Direitos Reservados]

CINENOVA 2022 – SESSÃO #6 

Wings for Butterflies (2021)

de Tilly Wallace

Wings for Butterflies (2021), de Tilly Wallace © Direitos Reservados

Nesta curta-metragem, uma animação produzida a partir de pinturas sobre vidro mergulha-nos em campos etéreos. Numa floresta embebida de tinta violeta, o filme impressionista, quase-abstrato e com transições como que líquidas entre planos, faz parecer, por vezes, que aquele mundo retratado se trata de um devaneio pessoal. Na verdade, as suas árvores têm raízes muito firmes e reais — poderiam ser as Sequóias-vermelhas nas costas californianas, em perigo de extinção. Também a personagem humana poderia ser histórica — quem sabe não se chama Julia Butterfly Hill? Num movimento contrário, porém, o mérito de Wings for Butterflies é demonstrar que, mais do que uma fantasia que poderia ser real, o real é, também, na sua própria concretude, místico, inspirador e vivo

Laila Nuñez

Night Visit (2021)

de Mya Kaplan

Night Visit (2021), de Mya Kaplan © Direitos Reservados

A meio da noite, Ruthie é surpreendida em casa pelo guarda noturno que diz ter ouvido um barulho. Reconhecendo-o de vista e atraída por ele, aproveita o momento para o seduzir e os dois acabam por se envolver. Tudo se adensa quando, perante a confusão lá fora, ele resolve sair à pressa.

Numa busca angustiante pela verdade, a protagonista entra em conflito com aquilo que sente, procurando equilibrar o amor com a necessidade de confrontar o rapaz. 

Mya Kaplan mostra uma capacidade de construir uma forte tensão dramática, resultando numa obra fulgurante de cariz psicológico.

Ricardo Fangueiro

Mar de Azul (2022)

de Juan Carlos Ballesteros 

Mar de Azul (2022), de Juan Carlos Ballesteros © Direitos Reservados

“(…)

mas levamos anos

a esquecer alguém

que apenas nos olhou”

José Tolentino Mendonça, Calle Principe, 25

Prelúdio junto ao mar. Que pode um encontro contra a vastidão do tempo? Uma série de fotografias procura na palavra a cristalização do berço originário, os braços da mãe que se retêm na memória como o instante inteiro de felicidade. 

Em Mar de Azul, Juan Carlos Ballesteros escreve-nos para travar o avanço do tempo, fugidio por natureza como o é o breve encontro por entre pinturas e desenhos a que pétalas azuis roubaram a sua atenção, deixando-o escapar. Mas, não fossem elas, e no lugar daquele que nos olhou restaria apenas o recorte vazio da sua ausência, como se nunca ali estivesse estado. 

Cátia Rodrigues

Alaúde (2021)

de João Pedro Barbosa Magalhães

Alaúde (2021), de João Pedro Barbosa Magalhães © Direitos Reservados

A música é um dos grandes mistérios deste nosso planeta, uma vibração sonora que se sente, uma ligação ontológica que parte de uma necessidade inidentificável, de expressão quase abstracta. A música pode representar tudo e nada, representa para quem toca, mas também para quem ouve. É esta a simples, mas muito forte descoberta do pequeno protagonista António, que é apanhado de surpresa quando um rancho folclórico tradicional passa em frente a sua casa, tocando e dançando. Este pequeno momento é o catalisador de todo o filme, movendo a acção e plantando uma semente em António, que irá agir de um modo inesperado. A curiosidade e a necessidade de aprofundar este novo contacto levam-no a cometer um erro, o que não seria problemático se, embora a tenra idade, António não partilhasse já de tantas responsabilidades em casa. O seu pai, Victor, conta com o filho para o ajudar em todas as tarefas, ensinando-o a viver através da projeção da sua própria vida na do filho, uma educação através do contacto. É central também a este filme a noção de aldeia, comportando ela também uma ideia de tradição, muito viva nas aldeias, mas moribunda nas cidades. Com efeito, muito do charme do filme reside neste cenário de aldeia, de quem vive de forma isolado e precária, com poucos contactos, mas com grande noção de tradição e continuidade – António é, de certo modo, uma extensão do seu pai. Apesar de alguma rigidez educativa, no final vemos um grande vislumbre de compaixão e compreensão – não são precisas muitas palavras quando se tem música.

Diogo Albarran

Filme de Quarto (2021)

de Raffaella Rosset

Filme de Quarto (2021), de Raffaella Rosset © Direitos Reservados

“Quanto tempo desmorona um prédio?” pergunta-nos a mulher que habita um apartamento no centro de São Paulo, a 110 metros do chão, por baixo do João e por cima da Dona Magli. Este está quase vazio, apenas existe uma poltrona, diversos garrafões de água, tanto cheios como vazios, e um projetor que dá ver imagens do apartamento que pertencem a outros tempos e parecem deixar saudade. Entretanto o mesmo é invadido por uma inundação.

Tiago Leonardo

Parceria com o CINENOVA – Festival de Cinema Interuniversitário Português 

[Foto em destaque: Filme de Quarto (2021), de Raffaella Rosset © Direitos Reservados]

CINENOVA 2022 – SESSÃO #5  

Ready-made (2022)

de Corentin Courage

Ready-made (2022), de Corentin Courage © Direitos Reservados

Em março de 2021, o Ministério da Justiça francês anunciou a construção de uma prisão às portas da pequena cidade de Crisenoy, perto de Paris. Na altura, e até ao início deste ano, acendeu-se um grande debate em torno da legitimidade da decisão, firmemente repudiada pelos habitantes da comuna. As suas reivindicações eram mais do que justas — para que a nova penitenciária pudesse acolher 1000 lugares, 20 hectares de terras agrícolas teriam de ser ocupados; além disso, preocupavam-se com a própria segurança, serenidade e com a queda na especulação imobiliária da região. 

Ready-Made, de Corentin Courage, leva-nos a inquietações ainda mais estruturais: qual é a verdadeira utilidade de uma prisão? Porque a tomamos como uma instituição de existência óbvia, inquestionável? Com claras influências da teoria teatral de Brecht e do cinema de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, a penitenciária é, aqui, levada ao seu extremo banal. Torna-se uma espécie de jogo da macaca. Denunciando a sua uniformização arquitetónica e sistêmica, a curta-metragem explora a prisão enquanto objet trouvé, incontestavelmente normalizado e excessivamente reproduzido.

Laila Nuñez

Mergen (2020)

de Raiymbek Alzhanov

Mergen (2020), de Raiymbek Alzhanov © Direitos Reservados

Mergen é filho do guerreiro Akbar e, ao deparar-se com uma Ásia dividida e devastada pelo conflito, vê-se na obrigação de substituir o seu pai ausente. Este é um filme que se vê envolto em camadas ritualísticas e espirituais, e que conta com cenários e figurinos que denotam este ambiente de magia antiga. A avó de Mergen é o pilar da família: é ela que dá força ao neto para conseguir enfrentar os soldados e é também ela que lhe permite ver aquilo que ele não conseguiria ver num estado normal. Sentimos uma sobrecarga emocional muito grande e um sentido de proteção que vem de todos os elementos desta família: a avó quer proteger o neto; o neto quer proteger a mãe; a mãe quer proteger os soldados feridos. Neste sentido, é interessante ver como as fortes figuras femininas inspiram este pequeno rapaz, e o fazem ser muito mais do que apenas “filho de guerreiro”. 

É, portanto, a ideia de coletivo e de sacrifício pelo coletivo que estão no centro desta curta-metragem do Cazaquistão, que se realça pela beleza da sua fotografia.

Inês Moreira

ELLE (2021)

de Alexandra Kurt

ELLE (2021), de Alexandra Kurt © Direitos Reservados

Elisabeth, ou Elle,  é uma mulher na casa dos 50 anos, com uma vida e um casamento estagnados que passa por uma enorme mudança quando é desafiada por Júlia, uma estudante de cinema, a ser protagonista do seu mais recente filme. Acompanhamos Elle, Julia, e colegas de quarto da mesma, num dia de verão cheio de alegria que se transforma numa jornada de redescoberta; como diz Júlia, “Ela não está perdida”. 

A saída da rotina e da estagnação do dia-a-dia faz com que Elle se torne não só a protagonista do filme de Julia mas da sua própria vida.

Tiago Leonardo

Transportation Procedures for Lovers (2021)

de Helena Estrela

Transportation Procedures for Lovers (2021), de Helena Estrela © Direitos Reservados

Onde fica o amor com a distância? No isolamento provocado pelo Covid-19. Como nos transportamos para junto dos nossos entes queridos quando a Fedex se recusa a transportar qualquer tipo de corpo? São essas as questões que este irónico exercício de correspondências efetuado durante a quarentena se propõe a responder.

Esta investigação sem grandes conclusões entende apenas que às vezes os corações podem colapsar como a economia.

Tiago Leonardo

Parceria com o CINENOVA – Festival de Cinema Interuniversitário Português 

[Foto em destaque: Transportation Procedures for Lovers (2021), de Helena Estrela © Direitos Reservados]

CINENOVA 2022 – SESSÃO #4 

My thoughts are going to end me (2022)

de Weronika Nowacka

My thoughts are going to end me (2022), de Weronika Nowacka © Direitos Reservados © Direitos Reservados

Qual analogia melhor daria conta de nos fazer compreender o interior do nosso cérebro, esse espaço onde se alojou, historicamente, o intelecto e o ato de pensar? Weronika Nowacka tenta algumas das mais habituais: gavetas, uma malha de redes, um computador, um jogo de tabuleiro, um labirinto, uma prisão. A figura da clausura implica, porém, a possibilidade do seu contrário — a fuga para a liberdade. Não é este o caso. Em My thoughts are going to end me, a realizadora polaca descreve este tão conhecido conflito entre nós e os nossos pensamentos, como se se tratasse de agências distintas, autónomas, num jogo de poder onde a mente é sempre a vencedora. A tentação irrefreável de escapar à sua velocidade e manipulação é sempre frustrada. Haverá solução? Será pela via racional? Poderia a imaginação de uma nova paisagem mental — em vez de gavetas num depósito empoeirado, grãos de areia macios numa praia quente, por exemplo — transformar, também, a forma como lidamos e reconciliamo-nos com a nossa consciência repudiada?

Laila Nuñez

Anok (2022)

de Laura Duarte Pires

Anok (2022), de Laura Duarte Pires © Direitos Reservados

Confrontando-nos com uma técnica e narrativa bastante simples — sobre a qual não deixamos de nos perguntar se motivada por uma identificação individual com a personagem —, Laura Pires nos guarda, não obstante, um final surpreendente e provocador. Desafiando este que é ainda um dos grandes tabus de género, alegadamente pouco discutido mesmo dentro das militâncias feministas, a realizadora transmuta a conhecida máxima de Espinosa para lançar ao público o questionamento: o que pode o corpo envelhecido

Laila Nuñez

A Wish Beyond Death (2022)

de Anna Maria Leventi

A Wish Beyond Death (2022), de Anna Maria Leventi © Direitos Reservados

Um humilde carteiro que fez do ofício o seu próprio nome — “the Postman” — é interrogado sobre a sua vida. A princípio, o seu quotidiano parece pacífico, ordinário e repetitivo. Todos os dias, leva as suas cartas a cada porta das Colinas do Deserto; todos os dias, através da sua janela, observa, também, a Mulher Areia a dançar pelo povoado. O desaparecimento repentino desta figura feminina e mitológica que habita as suas lembranças traz-lhe o vazio da saudade e o terror de uma morte, talvez, mais violenta do que se imaginava. Valendo-se de diversas técnicas visuais, combinadas a um trabalho de voz e composição sonora, a realizadora grega Anna Maria Leventi arrisca a criação de uma narrativa a partir do desenvolvimento de um único personagem, que pode provar-se capaz de muito mais do que apenas entregar cartas. 

Laila Nuñez

A Maior Gaiola do Mundo (2022)

de Marta Ribeiro e Catarina Colaço

A Maior Gaiola do Mundo (2022), de Marta Ribeiro e Catarina Colaço © Direitos Reservados

Confinado numa gaiola, um pássaro espreita por entre grades a dor do mundo que aflige a dança e o ciclo da vida, toda a solidão, a nostalgia e a saudade que atravessam gerações. Após um debate tentador com a sua própria sombra, o pássaro conquista, finalmente, a liberdade dos céus — apenas para aperceber-se cativo numa gaiola ainda maior, do tamanho do mundo.

Laila Nuñez

Olive and Otis (2022)

de James Leong Holston

Olive and Otis (2022), de James Leong Holston © Direitos Reservados

Um filme de terror em estilo de animação CalArts, Olive and Otis entrega, em cores contrastantes e movimentos adstritos, uma história de descamação. Inspira-se em clássicos de terror como Carrie e no body horror de Cronenberg para narrar o processo labiríntico do descascar de uma pele antiga e a instalação numa nova. A dismorfia corporal e a transição de género são aqui exploradas de maneira sufocante, com uma banda sonora que faz lembrar as notas de Angelo Badalamenti, contribuindo para o mergulho na angústia de Otis que, em flashes, encara o seu duplo e o palimpsesto de um “eu” de outrora.

Kenia Pollheim Nunes

Alien Human (2021) 

de Wen Pang

Alien Human (2021) , de Wen Pang © Direitos Reservados

Na mente dos outros, todos somos extraterrestres, e este filme é uma tentativa de chegar à mente dos “outros”. Partindo de uma tira de banda desenhada (Wang Yuewei) composta por quatro histórias diferentes (“Pearl”, “Goldfish”, “Sea” and “Hole”), esta animação propõe-se a entrar na mente de um extraterrestre. A dada a altura, o narrador questiona se a espécie humana é a única capaz de causar dor psicológica entre os seus, realçando a visão que se pretende aqui procurar sobre a nossa espécie, aos olhos de um extraterrestre. Num tom sereno e poético, o filme lembra um pouco a série The Midnight Gospel na tentativa de aliar uma visão filosófica a imagens surreais, desta feita, através de poemas. 

Ricardo Fangueiro

Wonderfully Made (2022)

de Joseph Hoh

Wonderfully Made (2022), de Joseph Hoh © Direitos Reservados

Numa caverna como a de Platão, onde as sombras pintam as paredes criando uma galáxia infinita, lança-se o mote a Wonderfully Made. A animação em 2D, pela mão de Joseph Hoh, esculpe o pequeno Nino, as incríveis constelações, e a paisagem estonteante que este passa a conhecer, mas só a partir do momento em que esconde a sua maior insegurança. Esta jornada de Nino pelas maravilhas do Universo é uma ode à criação e à aceitação, mostrando quão mais bonito é o mundo quando a capacidade de abraçar as “imperfeições” supera os muros que se erguem à volta de inseguranças.

Kenia Pollheim Nunes

Dear Yeda (2022)

de Renata Pereira

Dear Yeda (2022), de Renata Pereira © Direitos Reservados

Dear Yeda, por Renata “Renny” Pereira, é prova da intimidade que partilham o cinema e os processos de rememoração. Em apenas dois minutos, e a partir de pequenos amuletos que conjuram as lembranças passadas – uma xícara, um azulejo, a letra cursiva, o cheiro amanteigado, uma pequena escultura de um veado em madeira –, o filme se desenrola como uma epifania lírica e sinestésica: uma memória, ela mesma. Entre arquivo e desenho, entre o familiar e o universal, costura-se um passado contaminado pelo presente e pelo futuro. É assim que, nesta espécie de filme-carta-testamento, o gesto de Renny é, em última instância, o de animar a memória perdida e devolvê-la à sua avó.

Laila Nuñez

Parceria com o CINENOVA – Festival de Cinema Interuniversitário Português 

[Foto em destaque: Dear Yeda (2022), de Renata Pereira © Direitos Reservados]

Rebentos: Mostra Internacional de Cinema Emergente – Sessão 6

SENTIDO Y RAZÓN (2021)

um filme de Martín Pizarro Veglia

Poster de Sentido y Rázon, de Martín Pizarro Veglia © Direitos Reservados

Toda a gente conhece aquela célebre frase (mal) atribuída a Emma Goldman, figura central do movimento anarquista americano: “Se eu não puder dançar, esta não é a minha revolução”. Não que alguém o tenha dito por ela – ela simplesmente disse outra coisa. O que ela de facto disse foi que a felicidade teria de ocupar um lugar central no movimento, que a alegria não é apenas consequência da revolução, mas sua parte integrante.

Martín Pizarro Veglia parece aqui dar “sentido e razão” não apenas à posição de Emma Goldman através dos dois dançarinos que ocupam as ruas durante os protestos de 2019, no Chile, mas também à própria prática dos dançarinos. Não se trata, portanto, de dançar por dançar, mas de se apropriar do espaço público, dando-lhe um novo uso que tente escapar à dicotomia público-privado, central à construção do Estado moderno. O mesmo poderá ser dito do fotógrafo que documenta os protestos, as cargas policiais, os feridos, as barricadas. Mais do que uma ode à arte ou à sua dimensão política (“se esta não for política, não passa de decoração”, diz o fotógrafo), Sentido e Razão mostra como as capacidades e saberes de cada um podem ganhar um novo uso nestes momentos que suspendem a temporalidade de um mundo que já há muito perdeu qualquer sentido e razão.

João Ayton

KING MAX (2021)

um filme de Adèle Vincenti-Crasson

Poster de King Max, de Adèle Vincenti-Crasson © Direitos Reservados

King Max é um coming-of-age com temas que são cada vez mais comuns no cinema: o universo queer e as consequências e aventuras pessoais que este universo acarreta.

O espelho, representado no primeiro plano do filme, é um elemento chave na construção da curta-metragem: é ele a representação do desejo de mudança, que se revela crucial para a personagem principal. O corpo e o olhar o corpo, através do espelho, mostram esta vontade que se revela quase como uma necessidade de mudança. Mais tarde, percebemos que este desejo se transforma numa outra coisa. 

Dentro de casa, a personagem principal sente-se refém, aprisionada e infiel a si mesma. A corrida que precede a cena familiar mostra isso mesmo, uma vontade de libertação, que talvez seja possível na festa à qual acaba por ir parar. Nessa festa, a personagem recebe uma makeover e, mais uma vez, com a ajuda do espelho e da performance de uma Drag King, esta compreende que a vontade de mudança, antes tão indispensável, se transforma mais numa necessidade de aceitação, dela sobre si própria. É naquela festa, que a nossa personagem compreende que não é preciso forçar a mudança mas simplesmente pode ser aquilo que quiser ser, quando quiser ser. Ouvimos “we don’t have any gender” e sentimos esta libertação acontecer. A personagem, que antes tínhamos visto fragilizada no espelho, torna-se naquilo que dá título ao filme: King Max.

Inês Moreira

BEYOND (2021)

um filme de Julius Lagoutte

Poster de Beyond, de Julius Lagoutte © Direitos Reservados

Cidade. Gruas. Uma mulher. Somos apresentados a esta personagem feminina, que sabemos ter acabado de perder o seu irmão num acidente de trabalho, e que nos vai guiar ao longo do filme. Beyond compõe-se quer de planos em que vemos esta personagem, quer de planos em que vemos e ouvimos o que ela vê e ouve. É um filme desprovido de diálogo, cor e de personagens, onde tudo se passa interiormente nesta personagem única que o acompanha do início ao fim. Este dispositivo parece bastar para nos transmitir a mensagem pretendida: uma viagem de aceitação a uma nova fase da vida, agora sem o seu irmão.

Uma reflexão curta sobre a solidão, a perda e aquilo que fica para lá disso. Os espaços, antes habitados pelo irmão, são agora aquilo que restou dele e são abraçados dessa forma pela nossa personagem principal. As expressões faciais desta são o que constrói a narrativa, num filme que fala através das emoções e dos silêncios. E, apesar de à primeira vista parecer de difícil empatia, o espectador acaba por se ver envolvido no filme através desta personagem feminina que o encara de frente numa quebra da quarta parede. 

Inês Moreira

O QUE QUEDA DE NÓS (2021)

um filme de Miguel Goméz Abad

“Em tempos de auge, a conjectura de que a existência do Homem é uma quantidade constante e invariável pode entristecer ou irritar; em tempos que declinam (como este), é a promessa de que nenhum opróbrio, nenhuma calamidade nem nenhum ditador poderá empobrecer-nos” 

Jorge Luis Borges, El Tiempo Circular
Poster de O Que Queda de Nós, de Miguel Goméz Abad © Direitos Reservados

Ao contrário do imaginário e das mais típicas representações do que seria o fim do mundo – as guerras nucleares, as catástrofes “naturais”, etc. –, Miguel Goméz Abad apresenta-nos em O que Queda de Nós um fim dos tempos bucólico, envolto por montanhas, ao som da chuva, na companhia de duas mulheres. Os seus contornos são-nos vedados, o “inimigo” não tem rosto. Mas é na aparente oposição entre a calmaria de uma vida nas montanhas e o seu entorno incógnito que jaz a virtude do filme: o apocalipse não contará com os seus cavaleiros, não será um acontecimento catártico, mas antes lento, moroso, banal e normal – porque normalizado. O fim do mundo é o que já aqui está, e o desmoronar de toda e qualquer experiência, a pobreza de toda e qualquer relação com pessoas, coisas e lugares, que cada vez mais se apresenta como inevitabilidade histórica e como único caminho possível, é apenas um dos seus sintomas. A catástrofe da nossa liquidação reside precisamente aí, em liquidarmo-nos uns aos outros no mais profundo desespero pela sobrevivência.

O que resta de nós, então? O filme não o pergunta, afirma-o. Mas será isso o que nos resta?

João Ayton

Nota: A folha de sala inclui textos de autores que não pertencem ao CINEblog IFILNOVA.

Rebentos: Mostra Internacional de Cinema Emergente – Sessão 5

FRUTO DO VOSSO VENTRE, 2021

um filme de FÁBIO SILVA

A partir da casa familiar, das filmagens caseiras do pai até então desconhecidas, das fotografias dos irmãos que nunca conheceu ou dos planos do bairro onde os pais em tempos viveram, Fruto do Vosso Ventre, de Fábio Silva, desenvolve-se como uma narrativa arqueológica que procura dar significado — ou sentido — ao vazio deixado pela figura paternal. Poder-se-ia dizer que o filme é uma espécie de Carta ao Pai, um confronto não apenas com essa mesma figura, tão vaga e pesada quanto distante e dolorosa, mas também e acima de tudo com a “fuga, geralmente para dentro” e com a “pressão geral provocada pelo medo, pela fraqueza e pelo desespero” (Kafka) que recai sobre a figura do filho. Mas se, por um lado, o filho procura compreender essa ausência mergulhando no passado, abrindo gavetas, vendo cassetes antigas e desabafando com a mãe, por outro, ele acaba lentamente por preenchê-la, tornando-a, por isso mesmo, ainda mais evidente através da sobreposição das filmagens caseiras do pai aos planos do filme, nomeadamente aquela com que fecha o filme e que, nas palavras de Fábio, é “hoje impossível, mas que toda a vida desejei”.

João Ayton

MEIO ANO-LUZ, 2021

um filme de LEONARDO MOURAMATEUS

Num estilo documental que relembra o cinéma verité dos anos 60, Half a Light-Year chega-nos pelos olhos do brasileiro Leonardo Mouramateus. E será esta curta-metragem uma viagem por metade da distância que a luz percorreria num ano?

É inegável a relevância dada ao espaço e ao tempo nestes 18 minutos de filme. Em relação ao primeiro, há uma ligação muito próxima à cidade, uma Lisboa filmada com carinho e com verdade. Filmam-se os seus recantos e as pessoas que os preenchem no seu dia-a-dia, quase como se estivéssemos perante uma sinfonia da cidade ou uma carta de amor à Lisboa contemporânea.

Quanto ao tempo, este é utilizado como instrumento da narrativa. A dada altura no filme, as personagens autointitulam-se “viajantes do tempo” e parece que a câmara aprende a viajar com elas, por vezes para lugares e tempos diferentes daqueles que elas nos falam. O que vemos nem sempre é o que ouvimos. Um homem, sentado num degrau numa esquina, desenha no seu caderno, enquanto ouvimos um casal falar sobre uma carteira perdida. No final do filme, percebemos que visualmente a história que acabámos de ouvir começa ali, naquele plano da carteira perdida de que já tínhamos ouvido falar.

Há uma vertente quase de fantasia, engano e ficcionalização presentes no filme, apesar do seu género documental. As vozes que ouvimos levam-nos para diferentes lugares, e os desenhos que vemos confundem-se com esses lugares e com essas histórias. Fazer cinema é contar histórias e as personagens deste filme fazem isso muito bem.

Inês Moreira

CORPSELAND, 2020

um filme de YANG LIU

Uma respiração ofegante é o que ouvimos quando o filme inicia, todavia essa exaustão não abandona o espectador até ao final do filme. Corpseland monta um cenário distópico, onde coisas estranhas acontecem a um ritmo alucinante. 

O grafite é a primeira técnica utilizada por Yang Liu para animar este cenário feito de partes de cadáveres, como o próprio título indica, e por ser uma técnica tão crua ajuda a criar uma sensação de angústia e sofrimento, que vai acompanhar a exaustão sentida inicialmente. E mesmo que no final da primeira parte, a cor apareça e a técnica se aproxime de um desenho mais realista, a sensação de angústia não desaparece. É até mais assustador porque nos parece mais próximo e mais real.

Apesar de ser uma animação distópica, Corpseland acaba por refletir os medos da nossa sociedade. As partes do corpo que marcam o campo visual do filme acabam por chamar a atenção para a desumanização desta representação, transformando-se no seu tema chave. Os gestos daqueles a quem podemos chamar personagens são robóticos, e o seu andar relembra o andar de um zombie. 

O filme carrega ainda uma metáfora religiosa, talvez como forma de condenar a maneira como esta religião sobrevive nos dias de hoje. Associamos muitas vezes àqueles que seguem cegamente a fé, uma sensação de brainwash. Os motivos religiosos, como cruzes, remetem para os perigos daqueles que seguem algo sem questionamento. 

Este cenário de Corpseland revela-se recheado de conotações políticas e sociais que terminam no lugar que é a sala de cinema. Poderá esta ser uma chamada de atenção para nós mesmos enquanto espectadores? Se olharmos do ecrã para o espectador, nós somos o espectador, nós somos a sociedade, nós somos talvez quem perpetua estas ideias distorcidas que, segundo Yang Liu, um dia transformarão a distopia em realidade.

Inês Moreira

A VIDA É COISA QUE SEGUE, 2019

Um filme de BRUNA SCHELB CORRÊA

A Vida é Coisa que Segue, de Bruna Schelb Corrêa, é um filme sobre a vida e sobre a morte, das possíveis relações que os vivos podem ter com a morte e, também, com os mortos. Como (re)lembrar os nossos mortos? Como seguir com a vida sem aqueles e aquelas que a preencheram? Como não olhar para determinados objetos sem que eles não evoquem quem ficou para trás? Mas, também, como não olhar para o horizonte e não vislumbrar uma pessoa que julgamos morta? É destas relações e imagens de que trata o filme, que é, talvez por isso mesmo, um retrato de um “ritual de passagem”, da passagem do luto à aceitação de que as coisas seguem com e apesar dos que ficam para trás.

João Ayton

Nota: A folha de sala inclui textos de autores que não pertencem ao CINEblog IFILNOVA.

André Novais Oliveira – Da interioridade social à exterioridade doméstica

Sobre o território periférico de Contagem, cidade do estado de Minas Gerais, no Brasil, André Novais Oliveira expande a aritmética do verbo e acto de habitar para uma alteridade composta por imagens, sons e gestos a que os seus filmes dão forma, matéria e tempo num diálogo entre cinema e paisagem, cinema e vida. Em Fantasmas, Pouco mais de um mês e Quintal o movimento de rompimento e alargamento eleva-se a fenómeno poético e alegórico. 

Longe do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, dominante na produção de cinema brasileiro sobretudo até ao ano 2010, o realizador mineiro ajudou a definir um novo realismo, novo porque plural, sob o tecto da produtora Filmes de Plástico, que ele mesmo fundou com os realizadores Gabriel Martins, Maurílio Martins e o produtor Thiago Macêdo Correia. Desde 2009, a produtora tem-se afirmado no campo do Cinema de Periferia, no qual se inscrevem cada um dos seus nomes na historiografia do cinema brasileiro. Segundo Zanetti, o Cinema de Periferia caracteriza-se pela coexistência de uma dimensão interna, “que diz respeito à forma e ao conteúdo dos produtos audiovisuais em foco”, e uma dimensão externa, de viés político e social, “que diz respeito à posição simbólica ocupada por esses novos realizadores”. André Novais Oliveira, por sua vez, inverte e entrelaça o domínio de cada uma das dimensões, através de escolhas estéticas e narrativas que rompem com a distinção entre documentário e ficção e com o naturalismo expectável do Cinema de Periferia. Ao fazê-lo, o realizador coloca os seus filmes num lugar fílmico paradoxal entre uma interioridade social e uma exterioridade doméstica que construiu. 

O seu primeiro filme, Fantasmas, é um filme de um só plano-sequência e de um só propósito. Na expectativa de uma aparição, ouvem-se dois amigos conversar, sem que nunca se lhes veja o rosto, até à tomada de consciência por parte de um deles da existência de uma câmara que aponta na direcção da bomba de gasolina do outro lado da rua. A essa tomada de consciência segue-se o enunciado do propósito do filme – vislumbrar um amor do passado com a câmara, a qual irá mostrar o seu regresso, repetidamente confirmado na montagem. Vislumbrado esse amor, ao invés de se revelar a aparição que esperávamos desde o início do filme, ela prolonga-se à luz da descoberta de que os fantasmas estão no contra-campo que a câmara não mostra. 

Pouco mais de um mês, de André Novais Oliveira © Filmes de Plástico

Servindo-se de um fenómeno ele próprio fantasmagórico, o da câmara escura, Pouco mais de um mês convida-nos a entrar na atmosfera de um amor que o casal filmado, André e Élida, o realizador e a sua namorada, ainda não sabe ser amor. Ao ficcionalizar a sua vida, como se se tratasse da projecção de sombras no tecto do quarto do casal, André Novais Oliveira transforma-a na mise-en-scéne do filme, prolongando a intimidade do espaço doméstico para o espaço público, onde o filme se inscreve no tecido social das ruas de Contagem, nas quais o casal confessa um ao outro os receios do novo amor.

 

Quintal, de André Novais Oliveira © Filmes de Plástico

Quintal introduz dois elementos novos na cinematografia do realizador, a epifania e o cómico. Uma rajada de vento arrasta para o quintal de um casal de idosos, Maria José Novais Oliveira e Norberto Novais Oliveira, os pais do realizador, um portal de aspecto cósmico que vai invadir com um som crescente a sua casa. Se deste evento se esperava uma transformação na direcção narrativa do filme, na verdade, é nas acções que compõem o quotidiano do casal que a epifania se dá. De uma cassete de vídeo pornográfica antiga encontrada por casa surge uma tese de mestrado sobre movimentos estéticos do cinema pornográfico americano da década de 1990.. O tom cómico que envolve os acontecimentos do filme enfatiza o carácter surrealista da narrativa do filme, que o distancia da tendência realista que inicialmente parece seguir, nem por isso o afasta de uma reflexão social e política que começa dentro da casa de Noberto e Zezé e se expande tanto para o ginásio quanto para a academia. 

A obra inicial do realizador mineiro aponta para lugares intermédios, nem físicos nem psíquicos, onde o interior e o exterior se conjugam, onde os vários fragmentos se concentram num todo que paira como plano de fundo nos seus filmes. A pluralidade estética que encontramos nos seus filmes é atravessada pela horizontalidade da importância de cada um dos espaços filmados como lugares contíguos de diferentes vivências numa mesma realidade geográfica, Contagem. 

Cátia Rodrigues

[Foto em destaque: Fantasmas, de André Novais Oliveira © Filmes de Plástico]

Rebentos: Mostra Internacional de Cinema Emergente – Sessão 3

Rebentos é uma mostra de cinema que pretende apresentar o trabalho de jovens realizadores de todo o mundo. A mostra parte de uma iniciativa da Claraboia, uma iniciativa conjunta das associações A3 Apertum Ars e Dínamo que pretende dinamizar a cultura emergente no Concelho de Sintra, acolhida pela Casa da Juventude da Tapada das Mercês. Ao longo da mostra serão exibidas mais de 34 curtas-metragens, divididas em 7 sessões, que nos mostram diferentes géneros, técnicas e realidades sociais.

Poster de Palavras Gastas, de Maria Giraldes © Direitos Reservados

PALAVRAS GASTAS, 2020

um filme de MARIA GIRALDES

A partir do poema “Adeus” (1950) de Eugénio de Andrade, Palavras Gastas chega como ilustração daquele que é um tema comum ao espectador: a separação. O filme acaba por refletir sobre o seu próprio género: quando as palavras deixam de ser suficientes, a animação ganha lugar. Os dois peixes que Maria Giraldes anima servem para nos guiar nesta viagem e parecem refletir diretamente uma parte do poema de Andrade:

“Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes

verdes.

E eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.” 

Mas agora já nada parece possível. As palavras nada mais são que uma metáfora para os sentimentos, os sentimentos estão gastos – “antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro” – e agora o que resta? 

“Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

Não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.”

Uma bela forma de nos trazer este tema pelo qual praticamente todos nós já passamos, ainda que de formas diferentes. Nesta água temos contidas as diversas correntes, correntes que representam as diversas formas de ultrapassar uma separação e as diversas formas como esta nos pode afetar. 

Inês Moreira

Poster de Blood, de Saeid Khajenoori © Direitos Reservados

BLOOD, 2021

um filme de SAEID KHAJENOORI

Uma blusa no chão. Fragmentos de louça quebrada. Uma moldura partida. Uma garrafa de vodka vazia. Um cinzeiro. Um telefone a tocar. Uma ventoinha. Um close-up de uma mão. É assim que abre Blood do iraniano Saeid Khajenoori que demonstra mestria ao usar estas imagens para nos introduzir à história, a qual se ocupa de muito pouco diálogo. Os planos parados dos objetos conversam com o espectador que passa o filme todo a tentar juntar as peças do puzzle. 

Um homem de meia idade tenta recuperar da perda da sua mulher, mas o sangue que acredita escorrer-lhe pelo nariz não deixa. Tenta ir ao hospital mas ninguém o parece levar a sério. Apesar do nome e da descrição do filme, o espectador não vê nunca o sangue. Esta ausência representa uma dor que não é visível, uma dor que provém da alma e e a corrompe, infelizmente, até à morte.

“What is the cause of death?/ It seems he had a hard bleeding./ A hard bleeding? What do you mean?/ Nothing”. O filme apresenta uma estrutura circular sendo que o seu final rima com o início. Mas no lugar de todos aqueles objetos, vemos apenas o telefone a tocar que corta para um corpo sem cor (sem alma). O telefone revela-se mais importante que os outros objetos, fazendo-nos pensar sobre a questão da incomunicabilidade. Parece haver, desde o início do filme, uma falha na comunicação que acaba por piorar o estado deste homem que morre sozinho e distante do resto do mundo. A dor da perda revela-se fatal.

Inês Moreira

Poster de Mea Filia, de Christine Tsakmaka © Direitos Reservados

MEA FILIA, 2020

Um filme de CHRISTINE TSAKMAKA

Não é por acaso que a personagem principal, a mulher que trabalha no orfanato rodeada de crianças, se chama Antígona. À semelhança da personagem da tragédia de Sófocles, também ela é obrigada a lutar – embora se trate neste caso de uma luta interior – contra a infertilidade que se revela no seu corpo. A curta-metragem vive, assim, deste contraste entre a vivacidade infantil que rodeia a protagonista e o desejo frustrado, que partilha com o marido, de gerar vida. É neste ponto que a relação de Antígona com a pequena Danae ganha sentido. Ambas parecem encontrar a relação mãe-filha que lhes foi negada pela morte e pela doença, construindo laços tão ou mais fortes do que aqueles que unem uma família biológica.

Afonso Matos

Poster de Storgetnya, de Hovig Hagopian © Direitos Reservados

STORGETNYA, 2021

um filme de HOVIG HAGOPIAN

A Arménia é um país que prima pelo melhoramento da saúde e do bem-estar e pela riqueza de recursos dos seus sistemas. Storgetnya é um documentário que se foca numa das clínicas subterrâneas deste país, na mina Avan Salt, a 230 metros abaixo da superfície. A clínica tem foco na terapia espeleológica, uma terapia preventiva de doenças como a asma, e debruça-se numa procura por um melhoramento do sistema imunitário. 

Hovig Hagopian, jovem cineasta francês, apresenta este tema que, apesar de documentado, não se revela muito explicativo. O eixo central é a comunidade, um grupo de pessoas que se junta com o mesmo propósito: melhorar a sua qualidade de vida. Este é o tema do documentário, que se foca no estilo de vida comunitário destas pessoas. As particularidades do tratamento pouco parecem importar.

Um documentário que não é marcado pela intervenção do realizador, o qual revela muito mais observativo e contemplativo do que explicativo. Há ainda nele uma aproximação ao género literário do realismo mágico numa ideia de que algo tão estranho para o espectador comum, seja tão natural e tão caseiro para as pessoas que o vivem. Esta distância que o espectador sente do tema leva a uma quase ficcionalização do mesmo.

Storgetnya diminui a distância entre nós, espectador, e estas pessoas e dá-nos a conhecer esta realidade através da sua contemplação. E esta é talvez a maior qualidade do género documental.

Inês Moreira

Poster de The Dream, de Tamara Broćić © Direitos Reservados

THE DREAM, 2020

Um filme de TAMARA BROćIć

Realização, Argumento, Produção, Edição: TAMARA BROćIć; Correção de cor: MILOS RADOVANOVIC;  Elenco: JELENA RADOVANOVIC

A paisagem onde se ergue a loja de onde nos fala Jelena corresponde ao típico lugar de passagem. Um enclave entre as estradas da montanha, uma albergue numa aldeia isolada, uma estalagem do oeste árido: todos estes lugares transmitem a sensação de uma caixa fortificada onde recuperar as forças para a viagem. Só que o que faz esta curta-metragem é dar-nos a conhecer quem está por trás deste tipo de estabelecimentos, uma matriarca com a força resiliente de uma velha árvore, vivendo a desolação do muA paisagem onde se ergue a loja de onde nos fala Jelena corresponde ao típico lugar de passagem. Um enclave entre as estradas da montanha, um albergue numa aldeia isolada, uma estalagem do oeste árido: todos estes lugares transmitem a sensação de uma caixa fortificada onde recuperar as forças para a viagem. Só que o que faz esta curta-metragem é dar-nos a conhecer quem está por trás deste tipo de estabelecimentos, uma matriarca com a força resiliente de uma velha árvore, vivendo a desolação do mundo que a rodeia, exacerbada pela perda do marido e pelo encerramento da sua loja. Os pequenos gestos ganham sentido, assim como o sonho, na ordenação da realidade dura para onde nos deixamos levar, por fim, nesse movimento de contemplação – qual cura da melancolia — de ligação à terra e aos seus ciclos. Na solidão que se segue a uma morte misteriosa e ao fecho da loja, fundada com furor em tempos idos, a mulher exerce ainda uma função vital que contraria o ímpeto destruidor do destino, sustentando as fundações desta aldeia.

Afonso Matos

Poster de Ditadura Roxa, de Matheus Moura © Direitos Reservados

DITADURA ROXA, 2020

Um filme de MATHEUS MOURA

A sociedade onde decorre a ação desta curta-metragem, com os seus problemas estruturais bem claros, funciona como uma metáfora para a bipolaridade do Brasil dos nossos tempos. O peso da religião e a separação rígida entre o povo e as elites são duas características que podemos destacar tanto no plano da ficção como, sem dúvida, no da realidade. A associação entre o poder religioso, a cor roxa dos rostos e da iconografia cristã, e a manutenção de uma ordem social que distingue os privilegiados dos outros, os rostos verdes ligados à pobreza ou a uma quase escravidão, é aqui trabalhada com mestria. O sacrifício bíblico de Isaac por Abraão inverte-se num assassinato que permite a ascensão da protagonista para uma hierarquia superior. Mas o processo, com um início aleatório despontado pelo jogo, a transformação de traços macabros e delírios distorcidos, descreve também a violência da passagem de um mundo para o outro. A festa roxa em que somos levados a entrar exalta a estranheza dessa sociedade que, sujeitando a maioria dos seus membros a uma vida no limiar da pobreza – suportada pela hipocrisia da fé – encena o seu teatro de futilidades. Por tudo isto, esta curta põe o dedo numa ferida bem aberta (no Brasil, mas não só) que, com maior ou menor mestria, continuaremos a tentar sarar.

Afonso Matos

Esta é já a terceira sessão da mostra Rebentos, que poderão acompanhar no próximo dia 9 de junho, pelas 19h30, na Casa da Juventude da Tapada das Mercês.

Nota: A folha de sala inclui textos de autores que não pertencem ao CINEblog IFILNOVA.

Rebentos: Mostra Internacional de Cinema Emergente – Sessão 2

Poster de O Mar Já Não Pára Aqui, de Pedro Augusto Almeida © Direitos Reservados

O MAR JÁ NÃO PÁRA AQUI, 2020

Um filme de PEDRO AUGUSTO ALMEIDA

Neste documento singular sobre o estuário do Sado, trabalha-se o equilíbrio entre um ecossistema afetado pela pegada humana e a rotina de quem retira dele o seu sustento. A apanha de marisco, tão antiga como a presença do homem na zona da “caldeira”, serve também como motivo para um olhar sobre a paisagem, um mundo natural onde permanecem indícios de uma grandeza anterior, alguns prédios ao longe, percursos entre destroços de embarcações. Da memória do garum romano (uma pasta de peixe salgado famosa no mediterrâneo) à mais recente abundância de ostras, afetada pela poluição, o trabalho diário nesta zona fértil continua, hoje, a ter os seus protagonistas. Uma destas presenças, que surge desde o mar, parece sugerir que – apesar do ímpeto destruidor do homem – é possível viver em harmonia com a natureza, respeitar os seus ciclos, devolver o que se tirou a mais e contribuir para a sua regeneração.

Afonso Matos

Hocchey Ta Ki? (What Is Happenin?), de Om Singh, Monjima Mullick, Sneha Das, Sawanti Das © Direitos Reservados

HOCCHEY TA KI? (WHAT IS HAPPENING?), 2021

Um filme de OM SINGH, MONJIMA MULLICK, SNEHA DAS, SAWANTI DAS

É ao pôr as mãos à cabeça, em jeito de preocupação, que a personagem masculina de Hocckey Ta Ki? descobre o objeto perdido que dá origem a esta pequena viagem de 2 minutos.

Um objeto perdido. Uma desarrumação total. Uma mulher irritada. É do humor que parte esta narrativa simples que nos irrompe como uma lufada de ar fresco. Um episódio comum, que poderia acontecer a qualquer outro casal, em qualquer outra casa, em qualquer outra parte do mundo.

A animação em stop-motion é inteligente, e parece jogar muito bem com os sons particulares e com as cores vibrantes dos objetos, transportando-nos para dentro daquela pequena casa algures na Índia.

Hocckey Ta Ki? é uma viagem que, apesar de pequena, se mostra muito acolhedora e bem conseguida, aquecendo o coração do espectador e relembrando que o cinema pode ser isto mesmo: um lugar de calor.

Inês Moreira

Poster de Emma Forever, de Léo Fontaine © Direitos Reservados

EMMA FOREVER, 2019

Um filme de LÉO FONTAINE

O género coming-of-age foi muito querido no final dos anos 90/início dos anos 2000. A curta-metragem de Léo Fontaine, um coming-of-age atual, mostra um lado diferente destes filmes de adolescentes, onde a tecnologia e as redes sociais ocupam um lugar de destaque.

Emma Forever revela-se próximo do espectador, logo desde os primeiros minutos, transportando-nos para o universo dos filmes de Larry Clark e de séries como Skins e Skam. Todos nós já fomos adolescentes apaixonados. O que muda aqui é a geração, são os aparelhos que permitem o contacto entre os adolescentes, que querem isso mesmo: conectar-se uns com os outros. Estes dispositivos são contraditórios pois parecem permitir a aproximação dando a estes jovens mais opções de contacto, substituindo, por outro lado, o contacto físico e presencial.

Em Emma Forever somos guiados por Ugo e pelos seus dois melhores amigos: Bram e Karim. Três personagens que se revelam à margem daquele a que podemos chamar o grupo popular, no qual se encontra a Emma que dá origem ao título. Ugo apaixona-se por Emma e fantasia com ela no seu quarto, como qualquer outro adolescente apaixonado pela primeira vez. A dança que faz é uma dança comum, é uma dança simbólica da viagem que é sentir borboletas na barriga pela primeira vez.

Emma Forever abraça-nos e transporta-nos para a nossa própria adolescência. É a nostalgia que o torna tão memorável.

Inês Moreira

2610 – Bairro Zambujal, de Hugo Barros © Direitos Reservados

2610 – BAIRRO ZAMBUJAL, 2019

Um filme de HUGO BARROS

A vida no Bairro não se vive de uma forma, não se vê de uma cor, não se resume a um momento e não se sente a não ser no Bairro. E Hugo Barros sabe-o tão bem como sabe do poder das imagens, conseguindo iludir-nos ao nos fazer pensar por breves momentos que estamos também nós ali, a celebrar e dançar com aquelas crianças, aqueles homens, aquelas mulheres, aquela comunidade.

2610 – Bairro Zambujal é, mais que um retrato de uma comunidade, um convite que Hugo faz ao olhar exterior para admirar os rostos, as vozes, os sorrisos e a vida de quem vive no bairro onde cresceu. E são tantos os sorrisos que dificilmente se sai deste filme sem sorrir também e sem a vontade de poder partilhar do espírito que une estas pessoas, vindas de lugares tão diferentes.

Por isso deixemos os preconceitos, “a discriminação” (palavra que mais se houve no filme), e olhemos para a forma como se vive periferia da cidade, lutando contra a opressão com um sorriso na cara e vivendo em conjunto, num mundo em que cada vez mais se rege cada um por si.

Nuno Cintra

Poster de Thunder, de Jane Nagler © Direitos Reservados

THUNDER, 2021

Um filme de JANE NAGLER

Uma curta-metragem que evoca a superação da perda através da imaginação. Recorrendo a elementos da cultura popular associados à viagem – uma bússola, um mapa, um telescópio, etc. – somos chamados a entrar na atmosfera criada por esta criança, mesmo que transpareçam dúvidas quanto à causa que leva à sua partida ou ao objetivo dessa travessia marítima. Só pouco antes do aparecimento da tempestade se torna clara a relação do pequeno protagonista com uma figura ausente, que ele espera encontrar na luz do pólo norte. A passagem da imersão na água, em que termina a viagem imaginada, para o espaço doméstico permitirá reconhecer a importância da mãe desaparecida, que se torna presente, ainda, materializando-se na luz. É no regresso a casa que o confronto com a perda ganha uma outra dimensão. Toda a construção do espaço cénico e da narrativa culmina nessa sensação de que a imaginação – tão desenvolvida nos mais jovens – possui propriedades que a tornam capaz de subverter a realidade, ou pelo menos, pacificar o sujeito das suas feridas mais profundas, antes de este regressar, por fim, à normalidade quotidiana.

Afonso Matos

Poster de Merlich Merlich, de Hannil Ghilas © Direitos Reservados

MERLICH MERLICH, 2021

Um filme de HANNIL GHILAS

A gravidade despoletada pela morte retratada nas primeiras imagens vai sendo, progressivamente, suspensa com recurso à comédia ligeira e aos pequenos prazeres deste mundo urbano algo marginal. A figura do patriarca desaparecido parece, à primeira vista, semear o caos e a tristeza nesta comunidade islâmica de Marselha, mas tudo o que se segue – o fluxo de acontecimentos que marca a sua vida – faz com que conheçamos melhor alguns dos membros do grupo e nos interessamos, primeiro pelos seus gostos, depois pelos seus problemas. Entre as desgraças que acontecem, o acidente de carro transforma-se numa espécie de catarse através do ato de destruição. Ao contrário das pessoas, os bens materiais são recuperáveis e por isso não devemos preocupar-nos, quantas vezes demonstrando excessivo zelo, com a sua perfeição. Eis uma das coisas que esta curta-metragem poderá querer dizer. Mas se é importante esse desapego, não o deixa de ser também a recuperação do carro, no final, e a forma como ela desemboca na fala que dá título ao filme.

Afonso Matos

Nota: A folha de sala inclui textos de autores que não pertencem ao CINEblog IFILNOVA.