O passado recente de Assayas: um olhar sobre os tempos pandêmicos

Após realizar filmes como As Nuvens de Sils Maria (2014) e Personal Shopper (2016), o francês Olivier Assayas volta ao posto com o longa-metragem Hors du Temps, exibido na secção Competição na 74ª Berlinale. A escolha temporal é fundamental, o mês escolhido é abril de 2020: o começo do confinamento gerado pela pandemia do COVID-19. O realizador centraliza a narrativa na convivência entre dois irmãos, Paul (Vincent Macaigne) e Etienne (Micha Lescot), e suas respectivas namoradas, Carole (Nora Hamzawi) e Morgane (Nine D’Urso), que passam o lockdown na casa de campo dos seus falecidos pais. Se pensamos por algum momento que certas experiências vividas durante esse período foram individuais, Assayas nos mostra que estamos errados.

O filme explora a relação fraternal entre Paul e Etienne, que, na verdade, se constitui de contraposições. Paul é neurótico, tem medo de morrer por COVID e preocupa-se em higienizar todas as compras possíveis. Já Etienne enxerga o confinamento como um momento de relaxamento, longe das obrigações e não se aflige tanto no quesito higiene. Por conta de tais diferenças, a relação dos dois acontece, muitas vezes, através de discussões, que dificilmente resultam num consenso. Contudo, os diálogos estão longe de serem penosos, sendo, na realidade, efetivamente cômicos. O destaque está no personagem de Paul, uma espécie de mistura de Nanni Moretti e Woody Allen, verborrágico e paranóico ao extremo, ele tenta limpar inúmeras vezes uma panela queimada e proteger-se ao máximo do vírus, de forma a beirar o absurdo. Por outro lado, Etienne, um jornalista musical, exala um ar blasé, centrado em si mesmo.

Hors du temps, de Olivier Assayas © Curiosa Films, Vortex Sutra

A narrativa é permeada por memórias da infância, afinal os personagens estão vivendo na casa onde cresceram. E, ainda, reflexões sobre a vida e a arte. Tais reflexões são feitas em voz-off por Paul, enquanto vemos imagens de livros e quadros. Essa escolha poderia resultar em pleonasmos intragáveis, mas Assayas traz na fala complementos para a imagem. Em uma das considerações, Paul, cinéfilo e diretor de cinema, faz uma reflexão pertinente, utilizando as obras de Claude Monet como exemplo – explora as aproximações entre pinturas e as imagens do cinema: o cineasta como sendo, também, um pintor do mundo.

Essa reflexão pode ser vista na soma da direção de fotografia e das locações, resultando em planos que, de fato, poderiam ser comparados a pinturas. O cenário bucólico, não apenas em relação à natureza, onde a casa está localizada, mas na mise-en-scène dela, conferem um ar acolhedor, que certamente seria um oásis para qualquer um durante um confinamento.

Em termos estilísticos, Assayas opta, predominantemente, pelo uso de câmera na mão, o que nos aproxima dos personagens e concede um ar quase não ficcional, especialmente por termos vivido a pandemia num momento ainda tão recente. É um dos primeiros filmes de destaque a localizar a narrativa dentro desse momento. Entretanto, o realizador quebra a nossa imersão ao inserir explicações escritas em alguns momentos, como quando a protagonista ouve a entrevista de Jean Renoir falando sobre o seu pai e esta informação surge escrita no ecrã ou quando surge a cartela indicando no epílogo. Uma escolha que, apesar de compreensível, nos faz subir na superfície quando já tínhamos mergulhado.

Hors du temps, de Olivier Assayas © Curiosa Films, Vortex Sutra

Assayas chama a atenção para os planos que enquadram o tablet durante as chamadas de vídeos, uma modernização da comunicação que se transpôs para o cinema. Ocorre uma espécie de duplo enquadramento, aquele da personagem no ecrã do tablet e do aparelho no plano. Questionamo-nos se essa escolha de direção será cada vez mais comum, visto que tais tecnologias e formas de comunicar não recuarão. Uma escolha estilística que funciona, mas que gera um pouco de estranhamento, vemos um ecrã dentro de um ecrã.

Escrito no fim do primeiro lockdown, Hors du Temps é um retrato dos tempos pandêmicos e da convivência forçada que ele causou. Um filme que pode ser visto como um retrato autobiográfico de Assayas, a partir do personagem Etienne, mas que funciona na sua comicidade. Relembra-nos do confinamento como se fosse algo ocorrido há muito tempo, esquecemos dos momentos desagradáveis que vivemos e apenas rimos do que, um dia, já foi realidade.

Lílian Lopes

Mãos no fogo: a corrupção da vida através do cinema

O filme que representa Portugal na 74ª edição da Berlinale, Mãos no fogo (Portugal, 2024), de Margarida Gil, propõe uma “tese do real”, enquanto trabalha o cinema analógico, a imortalização do ser através do cinema e a administração do terror através de elementos cinematográficos e narrativos. É produzido pela produtora Ar de Filmes, que tem projetos cinematográficos e de teatro.

O filme começa com uma citação do livro em que é baseado, The Turn of the Screw (1898), de Henry James. Originalmente uma história de terror, a história possui elementos sobrenaturais e a crença de possessão fantasmagórica das personagens. Em Mãos no fogo, estas características surgem em nuances, e a dimensão fantasmagórica advém do próprio cinema.

The Turn of the Screw tem sido alvo de várias adaptações audiovisuais, sendo uma das mais recentes a série de terror The Haunting of Bly Manor (2018) de Mike Flannagan. Com base na sinopse do livro, é notória a “liberdade” da adaptação literária de Margarida Gil. Mantém-se o ambiente de terror e o quadro das personagens: a percetora, Lourdes (Rita Durão), os dois sobrinhos, Manuelinho (Elgar do Rosário) e Flora (Sofia Vilariço), e o tio, Leonardo (Marcello Urgeghe). De resto, é a imaginação da realizadora que dá origem à história de Mãos no Fogo.

O filme começa com uma montagem da preparação do material de filmagem analógico, enquanto passam os créditos iniciais. É estabelecido, assim, um dos motes centrais do filme: o cinema analógico como mecanismo técnico, com infinitas possibilidades. A ação começa in media res: a protagonista, Maria do Mar (Carolina Campanela), estudante de cinema, entra na cozinha de um solar no Douro para filmar o processo da cozinheira da casa. Não temos acesso ao início da história, na medida em que não sabemos como Mar foi parar à casa, apanhando-a a meio do documentário que está a gravar. A informação é-nos dada aos poucos, cabendo ao espectador juntar as peças.

Ao longo do filme, somos introduzidos aos restantes habitantes da casa: Céu (Adelaida Teixeira), a cozinheira, Gracinha (Sara Santos), a vizinha que é aprendiz de culinária de Céu, e o seu pai, Manoel (Ricardo Aibéo), que aparenta ter traços abusivos e quer afastar a filha da casa que denomina como “Casa dos Horrores”. Maria do Mar procura realizar um documentário sobre vários solares do Douro e, enquanto entrevista as pessoas que habitam na casa, vai desvendando segredos que se esforçam por manter escondidos.

Mãos no fogo, de Margarida Gil © 2024 Ar de Filmes

O filme vai formando o seu ritmo até cerca de dois terços da sua duração, momento em que o clímax se verifica com a descoberta de que Leonardo fazia gravações íntimas, encenadas e invasivas das pessoas da casa, nas quais se passou a incluir Maria do Mar. O momento de tensão sugere uma resolução forte, mas que acaba por se perder por entre uma narrativa paralela de romance entre Maria do Mar e Lourenço, um rapaz da aldeia que aparece de repente e sem grande justificação narrativa. Parece quase uma intermissão do filme, uma pausa para respiração, em que o filme ameaça a permanência dos horrores do solar e a auto-preservação de Maria do Mar, que parece querer afastar-se da casa. No fim do filme, Maria do Mar acaba por ficar, tomando o lugar de Lourdes ao tornar-se a nova estrela dos filmes de Leonardo.

Margarida Gil não nos situa no tempo em Mãos no Fogo. A própria temporalidade da narrativa parece estar suspensa, com a respiração a ser dada pelo tempo de preparação do material fílmico. Ao início, a escolha do analógico parece ser isso mesmo, uma escolha, como retoma a um cinema menos artificial e mais hands-on, mas a presença de carros antigos e ausência de tecnologias modernas geram a questão: em que tempo decorre a ação do filme? Para além disso, mesmo em termos de temporalidade da ação, o espectador é obrigado a uma constante re-situação da narrativa: para além do início in media res, existem saltos temporais que não são imediatos e é atribuída ao espectador a função de preencher as lacunas que o filme deixa.

A narrativa parece estar pendente num limbo temporal, em que a ação principal ocorre de forma sequencial, mas há determinados elementos que parecem alheios aos elementos de tempo e espaço, como os filmes de Leonardo, que, a partir do momento que são captados, pertencem a uma temporalidade própria, que não tem início nem fim.

Relativamente a outros aspetos técnicos, a banda sonora de Daniel Bernardes está presente em momentos-chave do filme; Margarida Gil não se serve da música para ambientar as cenas, mas sim para ditar o tom de determinados momentos que, contrariamente, seriam interpretados de forma diferente. “O silêncio é o bater do coração do mundo”, afirma uma das personagens. A sonoplastia em Mãos no fogo é trabalhada com o ritmo da narrativa e a respiração da técnica, dando origem a uma tensão elástica que se prolonga ao longo do filme. A casa filmada é quase uma personagem secundária, integrando a banda sonora com os sons que lhe são característicos e que preenchem os silêncios do filme.

Já a fotografia, creditada a Acácio de Almeida, é o ponto alto do filme. Desde enquadramentos trabalhados, em jogos de luz e sombra, até close-ups que se assemelham a retratos de pintura, a fotografia cativa o espectador desde início, mesmo quando a narrativa o parece fazer-se perder. Os planos estáticos da natureza ou dos animais surgem com uma grande carga emocional associada, quase numa imortalização dos mesmos antes de, inevitavelmente, serem destruídos pela mão humana. Esta dimensão de imortalização do objeto fílmico é outro dos elementos correntes ao longo do filme.

Em determinados momentos do filme, a imagem é interrompida por uma cena filmada em película, de uma situação algo encenada envolvendo as personagens da casa. As imagens parecem representar a verdadeira essência dessas personagens. Lourdes, altamente religiosa e púdica, está sexualizada enquanto fuma um cigarro. Manoelinho, descrito como um perigo para os seus colegas do externato, tem nas mãos um chicote. Maria do Mar está deitada no quarto, de tronco nu, alheia à gravação que lhe é feita. A inserção destas imagens, inicialmente desconcertante, é eventualmente explicada no terceiro ato do filme, onde parece ser sugerida uma possível resolução da narrativa.

Leonardo filma as personagens e, ao captar as suas imagens, captura também as suas almas, tendo-as ao seu controlo. Marcelo Urgeghe encarna uma personagem com um ar constantemente embriagado, de olhos semicerrados e uma postura indiferente à situação dos sobrinhos. Parece exercer um controlo sobrenatural sobre as várias pessoas da casa, sendo ele próprio a assombração que as possui. Serve-se da câmara como arma, aprisionando a essência encenada das personagens em cassetes. Esta é uma temática que remonta a medos primitivos associados às tecnologias de reprodução de que, ao ser fotografado, o ser humano perderia a alma.

O confronto da protagonista Maria do Mar com a verdade da “casa dos horrores” e com as gravações não-consentidas é um confronto com o uncanny. É a imortalização do ser na película, uma parte dele que deixa de lhe pertencer no momento em que é captado pela objetiva de uma câmara.

Mãos no fogo, de Margarida Gil © 2024 Ar de Filmes

Margarida Gil retoma ao cinema analógico, através da câmara de película, do gravador de bobines, do diário de produção e dos problemas a ele associados. Maria do Mar afirma querer um cinema genuíno, com pouca artificialidade: estuda a luz nos quartos onde quer filmar, sendo que possui também luz artificial que utiliza, no fim do filme, para gravar uma cena no escuro. A protagonista escreve no seu diário de produção, a dada altura, “Não falsificar. Não ceder. Busca da Verdade.” Este diário surge como uma janela aos pensamentos da personagem, e, mais complexamente, como uma reflexão sobre o ato de fazer cinema. É também nele que escreve: Reportagem → Descontrolo → Televisão. Maria do Mar compromete-se desde o início a fazer um documentário, apenas observando, sem intervir diretamente na ação. É por isso que, justifica, recorre a entrevistas gravadas em plano estático e não a panorâmicas, que, no seu olhar, seriam uma interferência direta na produção de sentido da cena.

“O cinema é a vida”, diz Maria do Mar. “A vida é o cinema”, responde Leonardo. Esta dupla maneira de olhar para o cinema está personificada nas ações das personagens e nas filmagens que ambos fazem. Maria do Mar procura “filmar a essência que a história não corrompeu e guardou”, enquanto Leonardo deturpa essa mesma essência e vai corrompendo as almas daquela casa.

O filme peca pela representação teatral dos atores, que, apesar de em tom com o ambiente encenado do filme, provocam uma saída e reentrada constantes da atenção da narrativa. Margarida Gil levanta temas importantes relativamente à essência do cinema e ao poder que lhe é inerente. Mãos no fogo é um filme estética e sonoramente poderoso, que funciona com a quebra da expectativa da narrativa esperada. Perde, em parte, pelo ritmo e, principalmente, pela ausência de uma conclusão sólida, mas encontra a sua justificação nas palavras da realizadora na entrevista que nos cedeu. De louvar o valor da produção e o enquadramento do filme na secção Encontros, onde encaixa perfeitamente.

Rita Pádua

CINENOVA 2024 – SESSÃO #8

NOVA OCUPAÇÃO | Dentro de ti, ó cidade

Férias em Portugal
Francisco Torres | Portugal, 2022

Férias em Portugal, de Francisco Torres © Direitos Reservados

Em Férias em Portugal, o turista é cidadão do destino. Quando Ana visita Lisboa depois de uns tempos a viver fora, regressa a uma cidade que já não é dela. Ao deambular pelas ruas, encontra uma capital a crescer para os lados. Percorre o caminho com um olhar opaco, a tentar recuperar uma intimidade do passado. Tenta ler a solidão, mas apenas se deixa reencontrar conexões paralelas, à procura de um sentimento reconhecível, qualquer espécie de familiaridade, no desejo carnal. A presença lacónica de Ana emana um constante, mas silencioso, grito de protesto acerca da sua situação, que não obstante se transmite somente em conformidade. A sua casa já não é esta, mas um outro lugar por revelar, existindo unicamente na sua relação com uma Lisboa fantasmagórica, de quem se despede sem dizer adeus.

Margarida Nabais

Topic for a Short Film
Carolina Dray | Portugal, 2023

Topic for a Short Film, de Carolina Dray © Direitos Reservados

Mariana, uma jovem aspirante a atriz em Lisboa. Nina, uma jovem aspirante a atriz em Moscovo. Inspirada na peça A Gaivota de Tchekhov, a curta-metragem de Carolina Dray explora o trabalho do ator e a relação deste com o texto. 

O grão da imagem, a semelhança com os homemade videos em super8 e os enquadramentos elevam a cinematografia de Marc Nickl à de um cinema de autor europeu. Esta, conjugada com uma montagem equilibrada e ritmada que, acima de tudo, é coerente, ajuda a estender a escada para daí podermos subir e compreender, compenetradamente, aquilo que a realizadora tem para nos dizer: A vida e a arte estão, inevitavelmente, interligadas. O último plano – uma quebra da quarta parede na qual vemos a claquete e ouvimos um “corta” – representa muito bem isso. As barreiras entre ficção e realidade são ténues e é impreterível que os nossos problemas na vida real se reflitam em palco.

No final, como Nina, em A Gaivota, compreendeu que o importante para o artista não é o sucesso, mas a persistência e a perseverança, também Mariana o parece ter compreendido.

Inês Moreira

Dentu Zona
Eliana Caleia | Portugal, 2023

Dentu Zona, de Eliana Caleia © Direitos Reservados

Em “zoom out”, este documentário observacional começa por filmar atentamente as mãos e as máquinas de Vítor Sanchez no seu atelier de serigrafia. Passamos para a loja “Dentu Zona— que é também uma livraria e uma biblioteca — onde o artista vende roupas sustentáveis com a marca “Bazofo” (palavra em crioulo de Cabo-Verde usada para descrever alguém com atitude e estilo), até chegarmos às ruas do bairro da Cova da Moura. Às tantas, percebemos que este “zoom out”, de dentro para fora, é afinal um “zoom in” que nos leva até à essência do projeto de Vítor: a sua comunidade. Perto do fim, ouvimos um personagem masculino que conversa com o artista dizer: “Eles têm de saber que esta amizade existe”. É cumprindo este desejo que o documentáio, num eco com a loja de nome homónimo, celebra e partilha a cultura de Cabo-Verde, dando-nos a conhecer o bairro onde vive a maior comunidade cabo-verdiana em Portugal, através de um olhar humano e sensível.

João Garcia Neto

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CINENOVA 2024 – SESSÃO #7

NOVA OBSERVAÇÃO | Ver Devagar

Broto a Broto
Óscar Silva | Portugal, 2021

Broto a Broto, de Óscar Silva © Direitos Reservados

Um filme que se apresenta como uma experiência. Com cores vibrantes, sons repetitivos e música envolvente, Broto a Broto convida-nos a entrar de olhos bem abertos no seu universo. O surreal floresce num horizonte natural, semeado por espectros numa paisagem saturada. Esta curta-metragem conduz-nos por um ritual que não necessita de vozes, que se mantém rente à terra e aí encontra a sua alma.

Margarida Rodrigues

Flores para o meu Pai
Luís Afonso Matos | Portugal, 2022

Flores para o meu Pai, de Luís Afonso Matos © Direitos Reservados

Como retratar a memória de forma concreta? Como “re-dramatizar” o passado sem o filtro de gaze da nostalgia parasítica que tenta sempre tornar o filme numa explosão emética de imagens aprimoradas? O que mais surpreende neste filme belíssimo é a construção por blocos. Em vez de captar a memória através das imagens fugazes que se dissolvem num todo, do subconsciente memórias chave são escavadas, cada uma eleita para um plano. O filme foge longe do pictórico, cada plano contém a beleza do mundo real que a câmara capta sem nunca se deixar pelo postal, os enquadramentos são extremamente dinâmicos em toda a sua profundidade de campo, o sentido cresce a cada segundo que passa. E mesmo sendo construído por estes longos e lindos planos – de forma exemplar, mas deixando algum espaço natural para respirar -, não é um filme da disjunção: o plano é a unidade mínima da sua linguagem e nesta acumulação vai de encontro a uma narrativa extremamente comovente.

Vasco Muralha

Neblina
Milene Coroado | Portugal, 2023

Neblina, de Milene Coroado © Direitos Reservados

Em Neblina, tece-se um exercício contemplativo sobre a melancolia e a relação do melancólico com o tempo. A melancolia é a neblina da condição humana: chega em silêncio e envolve a alma num entorpecimento profundo. Trazer a melancolia para o cinema implica pensar o espaço e o tempo como formas de sensibilidade. Entre o sono e o silêncio pesado, a quimera e a introspecção, o melancólico está no espaço, estagnado no tempo. Não há progressão narrativa, o gesto fica suspenso – propenso ao esquecimento.  

Maria Inês Mendes

Winterslaap
Leandros Brown, Daniel Howells | África do Sul, 2023

Winterslaap, de Leandros Brown e Daniel Howells © Direitos Reservados

Duas irmãs aprisionadas num lugar onde o sol há muito deixou de chegar. Uma mãe morta e um passado histórico feito de silêncios. Na África do Sul, em contexto pós-guerra – Segunda Guerra Boer – espera-se a primavera.

Ao dar vida a Terra Sonâmbula, Mia Couto inadvertidamente plantou as sementes que floresceriam em Winterslaap. A palavra que vem unir ambas as obras é precisamente: Terra. Terra Perdida, Terra Amaldiçoada, Terra Sonâmbula. Neste reino de palavras, a terra é regada em lágrimas e colhida em sofrimento.

Leandros Brown e Daniel Howells apresentam-nos um filme recheado de segredos, desenvolvido em cadência silenciosa numa mística que se assemelha a Bergman em substância de melancolia. “There is nothing left to care for” – a maturidade e sofisticação do filme que se coloca lado a lado com a consciência de que talvez o sol não virá e teremos de dançar à chuva. 

Inês Dias

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CINENOVA 2024 – SESSÃO #6

NOVA DETERMINAÇÃO | Eufémia

Once Means Forever
Katarzyna Bińko | Polónia, 2023

Once Means Forever, de Katarzyna Bińko © Direitos Reservados

Tal como o título promete, Once Means Forever reproduz em menos de 5 minutos uma noite com a possibilidade fraturante de reverberar ad infinitum. A animação esquemática, de traços e silhuetas, compele-nos a preencher os espaços vazios das figuras e formas com memórias individuais. Passamos pelas inúmeras caras desfocadas que enchem os bares e discotecas das cidades, preenchidas por medos demasiado comuns e pautadas pela batida incessante da música, compasso da ansiedade. O ponto de vista em primeira pessoa impulsiona esse mesmo universo de personalização do filme, um convite a calçar os sapatos do outro, que neste caso é a perigosa realidade de ser uma mulher num mundo de homens. Uma realidade anónima, que é perpetuada sem (re)conhecimento.

Margarida Nabais

La regla de Gala
Raquel Fernández Blázquez | Espanha, 2023

La Regla de Gala, de Raquel Fernández Blázquez © Direitos Reservados

Gala’s Redline revela-se um exercício de compreensão. Explora a condição da menstruação e o estado vulnerável em que nos pode deixar. Estabelece, desde logo, um posicionamento na vida de alguém que sofre as piores consequências de ter de conviver com o período. E isto faz com que empatizemos com a personagem principal, Gala. Vivemos a sua experiência e somos colocados na sua pele. Sentimos a sua dor, o seu desconforto e o seu mal-estar. E no entanto, vemo-la colocar tudo isto em suspenso para que consiga desempenhar as tarefas quotidianas que lhe são exigidas mesmo assim. Talvez o exercício da respiração conjunta e o movimento de compreensão empática das pessoas ao seu redor sejam os únicos apaziguadores deste estado amargo que lhe parece interminável.

Catarina Gerardo

Poppy’s Saturn
Nicole Tegelaar | Bélgica, 2023

Poppy’s Saturn, de Nicole Tegelaar © Direitos Reservados

Poppy’s Saturn presenteia-nos com um universo marcadamente onírico, que nos indica, logo, o percurso paralelo da realizadora enquanto diretora de arte. É um filme de ficção experimental e musical. Dominado pelo rosa e pelo roxo, abre a porta do sonho, como se o espectador o olhasse através de um caleidoscópio. 

Este sonho, no entanto, desde cedo se revela mais próximo do pesadelo. Há um tom misterioso constante, enunciado pela banda-sonora, e há figuras grotescas, piscando um olho a Only Lovers Left Alive de Jim Jarmusch, que provocam medo. Mas é sobre este tom medonho que compreendemos o filme como um hino à mulher. 

Poppy, personagem principal, é uma cantora que, após ver (novamente) um homem com uma condição física particular, inicia uma viagem de processamento de um trauma passado. Nesta viagem ganha força, ou “espinhos”, e acaba por conseguir ultrapassar o trauma. Nicole Tegelaar traz-nos uma curta-metragem sobre ser mulher num mundo que é dos homens. 

Inês Moreira

(in)quietude
Adriana Pereira | Portugal, 2023

O crime de violência doméstica é o mais denunciado e o que mais mata em Portugal. Dados da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género indicam que cerca de mil e quinhentas pessoas foram acolhidas na Rede Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica em 2023. A predominância sobre as vítimas do género feminino mantém-se: 50,1% mulheres, 48,6% crianças e 1,3% homens. A curta-metragem ficcional de Adriana Pereira retrata este flagelo da realidade portuguesa. Enquanto ilustra os motivos que comumente mantêm as mulheres num relacionamento violento: o medo, a dependência financeira e a submissão, (In)quietude figura a luta quotidiana de Joana pela sua libertação. Numa primeira leitura, a prisão desta jovem mulher poderá parecer dupla. Por um lado, há a fobia que a impede de sair de casa e habitar o espaço exterior, sair da escuridão e tocar a luz (literalmente). Por outro, o peso da relação abusiva com o marido, violento e opressivo. Com o desenlace da montagem linear e diarística do filme, percebemos que a primeira era uma extensão da segunda.

João Garcia Neto

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CINENOVA 2024 – SESSÃO #5

NOVA PROVOCAÇÃO | Sangro Sangro

Pipás
Lili Toth | Hungria, 2023

Pipás, de Lili Toth © Direitos Reservados

Pipás é um espaço privilegiado de encontro entre a pintura e o cinema. É uma história sobre violência contada num registo de profunda brutalidade. As pinceladas são vigorosas, o movimento é brusco e as figuras não têm os seus contornos definidos: são borrões negros que sangram ao som de uma guitarra. O filme serve-se do género documental e opera, simultaneamente, uma desconstrução da figuratividade. Não estamos – ainda – no domínio da abstração, mas prevalece a indefinição em torno da figura de Pista Pipás. Envolto no fumo do seu cachimbo, este assassino surge como a reminiscência de um passado sombrio, de uma lenda húngara desvanecida pelo tempo.  

Maria Inês Mendes

Ostra Negra
João Carlos Pinto | Portugal, 2023

Ostra Negra, de João Carlos Pinto © Direitos Reservados

Portugal vive até hoje sob as sombras do seu passado colonialista. O sentimento de culpa geral é autossatisfeito, ou seja, o caminho acaba nesta admissão abstrata – a admissão chega. A abstração é a própria causa deste curto-circuito: mesmo ainda estando pessoas vivas que presenciaram estes feitos, a memória coletiva é de um plateau uniforme de “mal”. Todos sabem que foi algo sinistro, mas encontra-se demasiado compartimentado a um plano conceptual. Há algo essencial no parafrasear que Daney faz de Bazin no Travelling de Kapo, “se foi filmado, eu tenho de o ver”: a crueldade necessária de enfrentar o real. Na apresentação do restauro do seu filme Ato dos Feitos na Guiné, Fernando Matos Silva falou do choque que foi para certos espectadores ver imagens reais deste acontecimento atroz, o abstrato a tornar-se concreto. Quantas vezes vemos as positivas imagens da revolução em comparação com estas violentas imagens do nosso passado? Há algo de muito nocivo nesta disparidade. Em Ostra Negra o espetador é enfrentado por estas imagens, numa montagem dinâmica que não suaviza a sua crueza. O filme segue uma lógica sensorial que extrai das imagens a sua potência através de uma elevação tenebrosa, algo que se torna claro, especialmente,  no trabalho minucioso do campo sonoro (penso até agora enquanto escrevo este texto num específico som de um pé a pisar a lama). Paradoxalmente, esta torna-se a maior força do filme: a criação artística deste espaço elevado impactante, sem que o artifício alguma vez deixe o espectador esquecer a realidade destas imagens.

Vasco Muralha

Babushka
Simon Höbert | Áustria, 2022

Babushka, de Simon Höbert © Direitos Reservados

Áustria, 1945. Dois soldados russos surgem na casa de Marie e sua avó. Com medo, ela esconde a menina dos desertores. Entretanto, no meio da noite, um deles a vê. O encontro dos dois acaba por se mostrar diferente das expectativas.

Um filme que se poderia passar nos dias atuais. “Are they real devils?”, Marie pergunta para a avó. No meio de composições e de uma fotografia que transforma os planos em verdadeiros quadros, Höbert nos levanta tal questionamento. Cercado pelo medo e pela incerteza dos acontecimentos, ele mergulha nos personagens com a missão de ir além da superfície, representada pela personagem da avó, que toma como certeza os pré-conceitos que carrega. 

Babushka nos toca, nos faz refletir na existência de afetos mesmo nos momentos que, para muitos, seriam improváveis. Há um alguém para além de um país ou de qualquer motivação política.

*A presente folha de sala encontra-se escrita em português do Brasil.

Lílian Lopes

Sangro Sangro
Vera Barquero | Portugal, 2022

Sangro Sangro, de Vera Barquero © Direitos Reservados

Mês após mês, lua após lua. Num fluxo ininterrupto de repetições, sangramos. O que é que significa este sangue? É esta a condição necessária para ser mulher? Na escultura, na pintura, no cinema. Em estátuas e em museus, nas montras e nas paredes do metro são dispostas imagens da mulher. Mulheres despidas, desprovidas de encobrimento, apenas conviventes com a sua condição feminina, percecionadas como objeto de contemplação e de desejo, quer seja este puro ou impuro.

O que é o sangue que sai de nós? Porque é que tem de ser escondido? Vera Barquero, em Sangro, Sangro (2022), explora de forma curiosa este movimento de encobrimento generalizado que mulheres fazem do sangue que menstruam. 

Através de técnicas de montagem que apologizam a ideia de repetição, a diretora mostra-nos a convivência com este fluxo, num exercício de abolição do tabu cultural e de promoção de uma compreensão empática da menstruação. Constitui-se essencialmente como uma renúncia ao estereótipo de que o período é símbolo de impureza, estereótipo este que tem sido alimentado desde sempre por mitos sobre a fertilidade e a natureza desconhecida do ciclo menstrual. Por isso, aqui contraria-se o tabu e subverte-se o constrangimento, transfigurando-o para questões pertinentes. Sangro, Sangro apresenta-nos um contraste preponderante, que deve ser pensado. Mostra-nos, por um lado, variadíssimas imagens de mulheres despidas como metáfora de um foco no corpo como objeto sexual, onde a feminilidade e a sexualidade são diretamente associadas ao corpo feminino, predominando uma imagem idealizada da mulher que não corresponde à realidade. Por outro lado, mostra-nos o que, tendencialmente, é e tem de ser sujeito ao encobrimento porque se acredita ser nojento ou um não-assunto, daí Sangro, Sangro desempenhar uma excelente função na tarefa de mostrar o que ninguém quer ver – o real, o sangue, o fluxo, os tampões, o desconforto. 

Ao longo desta curta-metragem é muito fácil deixar-se levar pelo clima desconcertante que se vai instalando. Dado pelo forte trabalho de som, pela justaposição de imagens, e pela interferência (mais que necessária) dos intertítulos, o ambiente de rotina que o espectador sente é dado por este mesmo ritmo conseguido através da montagem. Através desta recorrência habitual de sequências de imagens – da reiteração do sangue “Eu sangro, sangro, sangro” – o espectador consegue aceder a uma fração da condição de viver como pessoa que menstrua. 

O sangue que sai de nós não nos define como mulheres. Desafiar o tabu que rodeia a menstruação requer a desestruturação das hierarquias de poder patriarcais e a promoção da igualdade de género em todos os subdomínios da sociedade. Isso implica fazer filmes como este. Filmes que mostram o desconfortável. Implica, não só mostrar mulheres nuas, mas cruas. Implica um trabalho constante de educação sobre o real, sobre a menstruação e outros temas comummente interditos ou não tão trabalhados. Implica a capacitação das mulheres a fazerem escolhas sobre os seus corpos e saúde, ao por exemplo tomar a pílula (ou não), contrariando a tendência patriarcal de controlo e regulação do corpo feminino, para que se estabeleçam ambientes onde a experiência feminina seja valorizada e tratada com o respeito e a dignidade que merece.

Catarina Gerardo

Le Chant des bêtes
Titouan Ropert | França, 2023

Le Chant des bêtes, de Titouan Ropert © Direitos Reservados

Para um jornalista desportivo, numa França invadida pelo Euro 2022, a competição desportiva é, subitamente, posta de lado quando recebe uma carta inesperada. Com ela, uma pen cheia de vídeos, imagens gráficas de um matadouro. Ruben, o jornalista, começa então a desenrolar o novelo desta narrativa, movido por repulsa e frustração. Aproveitando o espírito e estética do Dogma 95 — a câmara inquieta, as imagens de vigilância e a mise-en-scène contida — o filme denuncia as práticas repugnantes dos matadouros e as lágrimas de crocodilo de quem as gere.

Da alucinação à mais real imagem (atentem o olho, saberão de qual falamos), Le Chant des bêtes é um testemunho de como a imagem cinematográfica é capaz de filosofar, trazendo questões já discutidas por filósofos como Derrida, como a fronteira abismal de como vemos o “outro” (animal) neste meio humanocentrista. 

Kenia Polheim Nunes

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CINENOVA 2024 – SESSÃO #4

NOVA IMAGINAÇÃO | Fotografia e Verdade

Istina
Tamara Denic | Alemanha, 2022

Istina, de Tamara Denic © Direitos Reservados

Uma história sobre o peso das imagens, o preço da verdade, e a coragem necessária para carregar uma câmara no seio de uma cultura de medo. Istina – que significa “verdade” – retrata a realidade de uma fotojornalista cujo trabalho na Sérvia leva-a a temer pela segurança da filha. No entanto, mesmo partindo para a Alemanha com ela, o clima de hostilidade e violência que enfrentava, mantém-se. Istina revela um equilíbrio entre os seus momentos mais íntimos e a amplitude da sua história. Através de planos fechados, por vezes sufocantes, intercalados por enquadramentos amplos que oferecem a oportunidade de respirar fundo, esta curta-metragem amplifica as ações ao aproximar-se verdadeiramente das personagens. 

Margarida Rodrigues

Défilement
Francisca Miranda | Portugal, 2023

Défilement, de Francisca Miranda © Direitos Reservados

“Não existe no nosso tempo nenhuma obra de arte que não tenha sido tão atentamente observada como a fotografia de nós próprios, dos parentes e amigos mais próximos, dos nossos seres amados”, escreveu Alfred Lichtwark, director do Kunsthalle Hamburg,em 1907. Certeiro, mantém-se mais que atual.

Em Défilement, a matéria é mesmo essa — Francisca Miranda desenrola o novelo familiar, traçando a história da família em “momentos Kodak”, simultaneamente ternos e reveladores. Presença e ausência fazem-se sentir num axis espaço/tempo desenhado por uma voz-guia que nos apresenta as “personagens”, esta lançada sobre um rol de imagens libertas de constrições, mas atestadas de eternidade.

Kenia Pollheim Nunes

À Luz das Impressões
Luís Miguel Rocha | Portugal, 2023

À luz das impressões, de Luís Miguel Rocha © Direitos Reservados

Um filme que se desenvolve ao escuro e em escuro – quase como um sonho dito em voz alta. Em estilo ensaio, relembra Jonas Mekas a respeito  de imaginário cavernoso. É cinema experimental em expoente poético.  À Luz Das Impressões apresenta o processo de uma revelação: A metafísica, “uma impressão permanente”, as fotografias. E, ainda,uma revelação interior: uma confissão sussurrante na penumbra do ver e do sentir. Delicadeza, melancolia, memória: Luís Miguel Rocha convida o espectador a especular e a sentir.

Inês Dias

Cassette
Mirtemir Murotov | Uzbequistão, 2022

Cassette, de Mirtemir Murotov © Direitos Reservados

Um pai aborrecido, uma cassete rodada à exaustão. Cassette, de Timur Murodov Shuxratovich, tem como pano de fundo as estradas do Uzbequistão, exploradas à la Caro Diário com um único objetivo: restituir as imagens de uma cassete antiga, vista (e ouvida) em loop por um senhor que tem a arma da obsolescência programada apontada na sua direção: uma pen, para ele, não é nada mais do que um objeto destinado ao sumiço. À boleia simpática do sidecar de uma mota antiga, percorremos estas ruas da região de Samarkand à procura de uma solução que obrigará, invariavelmente, à entrada do nosso protagonista no século XXI.

Kenia Pollheim Nunes

Re-Discovery
Anna Alexandrovna Danilova | Rússia, 2022

Re-Discovery, de Anna Alexandrovna Danilova © Direitos Reservados

Aniversary of the Revolution, de Dziga Vertov, é um exemplo feliz de um filme recuperado quase na sua totalidade. Deixou de ter lugar no realismo soviético dos anos 30 e, durante anos, esteve perdido entre gavetas fundas e prateleiras altas – anónimo e empoeirado. E como este, muitos outros. Em Re-discovery, acompanhamos o processo de escavação arqueológica do arquivo nacional russo de cinema, o Gosfilmofond. Aquilo que vemos é, afinal, uma ode à (re)descoberta do shelved cinema e uma meditação sobre o poder da imagem de arquivo. Porque restaurar a imagem é recuperar o que nela foi encapsulado: o tempo, a memória coletiva e o destino que se cumpriu ou ficou por cumprir.  

Maria Inês Mendes

As seguintes folhas de sala são uma parceria com o CINENOVA – Festival de Cinema Interuniversitário Português 

CINEBLOG

Scorsese devolve-nos a lição em Made in England: The Films of Powell and Pressburger

Um dos protagonistas desta 74ª edição da Berlinale é o realizador Martin Scorsese, que, no passado dia 20, foi honrado com o seu mais prestigiado prémio – o Urso de Ouro Honorário. Anteriormente, este foi atribuído a nomes como Steven Spielberg, Isabelle Huppert, Wim Wenders e Ken Loach. A acompanhar a atribuição do prémio, numa sessão especial de homenagem, foi exibido The Departed – Entre Inimigos (2006), filme que valeu a Scorsese o seu primeiro e único Óscar de Melhor Realizador (não esquecer que este ano o cineasta está novamente nomeado para Melhor Realizador por Assassinos da Lua das Flores).

Os dois não são indissociáveis, pelo que, se a Berlinale escolheu distinguir Scorsese pela sua obra enquanto realizador, soube também que era importante dar espaço a Scorsese enquanto “professor” ou, mais essencialmente, enquanto “fã apaixonado” que é. Esse espaço está consagrado no filme Made in England: The Films of Powell and Pressburger (2024), realizado por David Hinton e exibido na secção Berlinale Special. O filme é sobre, precisamente, a reconhecida dupla de realizadores Michael Powell e Emeric Pressburger. 

Emeric Pressburger, Michael Powell e Martin Scorsese em Made in England: The Films of Powell and Pressburger, de David Hinton © 2024 P & P Film Limited & British Broadcasting Corporation.

O filme é inteiramente narrado por Scorsese enquanto este mergulha a fundo nas obras dos dois realizadores, obras essas de grande valor sentimental e formativo. O cineasta abre a longa-metragem com uma partilha do seu primeiro contacto com um dos elementos da dupla – Michael Powell – através do seu filme O Ladrão de Bagdad (1940), um de muitos filmes britânicos que era possível às televisões americanas exibir por não haver questões de direitos. Scorsese conta como, por padecer de asma, passava a maior parte do tempo em casa a ver estes filmes. Este começo comunica-nos logo como esta viagem será pessoal e emocional para o seu narrador.

A história é percorrida de forma cronológica, documentando os trabalhos individuais até à dupla se encontrar e a obra que desenvolveram conjuntamente, onde assistimos a uma enriquecedora aula de Scorsese enquanto este fala de filmes como A Vida do Coronel Blimp (1943), Quando os Sinos Dobram (1947) e Os Sapatos Vermelhos (1948). A acompanhar a narração, sempre apaixonada, temos cenas dos respetivos filmes e momentos referidos numa ilustração que explicita as ideias, mas não as ultrapassa. Quer isto dizer que não existe um jogo entre as imagens mostradas que acrescente significado ao que é dito por Scorsese e que eleve o documentário para lá da sua convencionalidade.

As imagens são poderosas por si e ilustram o tratamento de cor, do movimento e o sentido de música e ritmo que faz com os filmes sejam ainda hoje conceituados (importante aqui referir que este reconhecimento em muito se deve ao esforço de curadoria de Scorsese, que se tornou amigo próximo de Powell nos últimos anos da sua vida e lhe apresentou Thelma Schoonmaker, que viria a ser sua esposa). Retomando o filme, fica a faltar um outro registo: um registo que refletisse a própria experimentação que marcou a cinematografia de Powell e Pressburger e, mais ainda, a paixão pelo cinema que Scorsese tanto exulta no par. Em vez de “Os filmes de Powell e Pressburger”, um subtítulo mais apropriado seria “Os filmes de Powell e Pressburger segundo Martin Scorsese”. Não que este seja mau professor, muito pelo contrário (é possível ouvi-lo horas a fio sem cansaço). A menção solitária a David Hinton, neste texto, por comparação com as várias ao cineasta americano, não é por acaso. Scorsese está a devolver ao espectador a lição que aprendeu a partir dos filmes de Michael Powell e Emeric Pressburger, numa aula que é inteiramente sua.

Nuno Gaio e Silva

[Foto em destaque: Kim Hunter e David Niven em A Matter of Life and Death, de Michael Powell e Emeric Pressburger © Carlton International Media Limited]

CINENOVA 2024 – SESSÃO #3

NOVA INTERPRETAÇÃO | Amor, Vidas Novas

Minuit sur MSN
Elise Levy | França, 2023

Minuit sur MSN, de Elise Levy © Direitos Reservados

Vivemos num momento de nostalgia dos anos 2000. Entre roupas marcantes da época, músicas com batidas semelhantes e, até mesmo, uma retomada das comédias românticas, surge Midnight on MSN retrata em imagens o que é ser adolescente no ano de 2008. Tocando sensivelmente nesta fase da vida, o curta-metragem apresenta-nos a amizade entre Laure e Alix, duas garotas de 13 anos que, apesar de estudarem na mesma escola, comunicam-se através da rede de mensagens em questão. Proveniente da escola francesa La Fémis, trata-se do filme de estreia de Elise Levy como roteirista-diretora. Levy aborda as recorrentes temáticas vividas por muitos adolescentes, o bullying, o florescer de novos sentimentos e a procura de aceitação. Embora pareça clichê, a realizadora transporta-nos prosperamente para estes anos e nos faz mergulhar na história. Entre pôsteres, gravações em webcam e canções do Radiohead, somos tomados pela reminiscência do passado ao vermos a tela do MSN e ouvirmos o ruído das suas notificações. Trata-se de um coming of age capaz de nos lembrar dos nossos primeiros amores e conflitos. O relembrar de quem um dia fomos.

*O presente texto encontra-se escrito em português do Brasil.

Lílian Lopes

A Transient Taste
Eva Neidlinger | Alemanha, 2022

A Transient Taste, de Eva Neidlinger © Direitos Reservados

Um filme que acima de tudo está do lado de uma criança. Não é um filme subjetivo, nem um filme de planos subjetivos. A câmara não tenta tomar a posição da personagem, nem a dramatização do mundo exterior é justificada como uma expansão ficcional do seu estado interior. Mas mesmo assim, a câmara acompanha-a. Acompanha-a como quem acompanha uma pessoa real, acompanha-a querendo mostrar (e entender) o seu lado, sem a pretensão de o conseguir perfurar. Tanto vemos como ouvimos: a banda sonora está repleta de sons desconfortavelmente viscerais da natureza.

Um filme que mostra o infantil sem condescendência, mas também sem fingir conseguir entendê-lo tão bem como uma criança.

Vasco Muralha

In Heaven and On Earth
Yulia Yukhymets | Polónia, 2023

In Heaven and On Earth, de Yulia Yukhymets © Direitos Reservados

Impossível olhar In Heaven and On Earth sem pensar no cinema do polaco Paweł Pawlikowski. Vinda, também, da Polónia, a curta-metragem de Yulia Yukhymets enquadra Tosia da mesma forma que Pawlikowski enquadrava a sua Ida – é a preferência pelo close-up que dá o carácter tão penetrante a este filme de cinematografia belíssima. 

O tema é a morte de um pai, bombeiro. O cenário é um funeral. E a escolha do preto e branco eleva ao expoente máximo a índole fúnebre. Contudo, é a meio do filme que percebemos que este será muito mais do que isso. É, sobretudo, um filme sobre uma relação entre irmãos. Irmãos de mães diferentes, de idades diferentes, desconhecidos, mas que partilham uma dor comum: a morte do pai. Negando-o numa primeira interação, Tosia logo percebe que este irmão a coloca, na verdade, mais próxima do pai perdido. 

In Heaven and On Earth chega-nos com uma simplicidade brilhante, quer ao nível dos planos, como o close-up de uma formiga nas mãos de Tosia, quer ao nível da narrativa, como quando o pequeno irmão conta que viu o pai no céu e Tosia o questiona sobre o que este terá dito. Ele responde “He said there are no fires there”, e são estas as últimas palavras que ouvimos.

Inês Moreira

The Creature
Damian Kosowski | Polónia, 2022

The Creature, de Damian Kosowski © Direitos Reservados

Kaznik, um miúdo de 7 anos, não consegue ultrapassar o facto da sua tia não o continuar a acompanhar no caminho para a escola e procura nas memórias do passado uma explicação para esta mudança. 

Kaznik é o narrador deste The Creature, agora adulto, e a tia Dagna é a sua musa, aquela que relembra como sendo a única mulher bela e jovem da sua família. Damian Kosowski traz-nos, aparentemente, um típico drama familiar com momentos que nos transportam quase para a dimensão do documentário, através das imagens de arquivo que complementam muito bem o trabalho de fotografia de Ignacy Ciszewski. 

É uma câmara que olha as relações familiares através da lente da memória, o que pode ser perigoso tendo em conta a falta de veracidade – em alguns casos – e a necessidade de dar resposta a um passado que não se compreende muito bem. No seio familiar, as relações não são completamente transparentes. Os adultos não conseguem encontrar formas de dizer aquilo que querem dizer. O ser humano revela-se complexo, vasto e sem conseguir dar resposta aos seus problemas. 

Inês Moreira

As seguintes folhas de sala são uma parceria com o CINENOVA – Festival de Cinema Interuniversitário Português 

CINEBLOG

CINENOVA 2024 – SESSÃO #2

NOVA MEMORIZAÇÃO | Até ao meu regresso…

Valeria
Olga Khoreva | Rússia, 2023

Valeria, de Olga Khoreva © Direitos Reservados

É no palco do passado que Valeria habita. E é logo no primeiro plano que o descobrimos, viajando por uma casa de aura sinistramente premonitória, por onde entra a personagem-título: uma empregada doméstica que também parece reconhecer algo no espaço. Instala-se o mistério, em que cada objecto parece relíquia, cada pormenor, uma pista e o som mais miúdo, o mais alto. Apesar da sensação de vinheta crescente, é um filme de delicadezas, em que o detalhe é exaltado e um grão de areia tem a capacidade de romper com o equilíbrio ténue da realidade. Neste universo onde a objetividade é esquecida, seguimos uma única personagem. E, usando espelhos como instrumentos de reflexão, simultaneamente, visual e conceptual, as deformações de cada imagem refletida revelam diferentes visões da mesma pessoa. No reflexo, descobrimos o seu potencial nostálgico – a qualidade fracturante da memória. Mas quem nos devolve o olhar é um fantasma do arrependimento, vítima da impossibilidade do retorno.

Margarida Nabais

Liminal Space: Diving Within
Anahita Safarnejad Choobary | Alemanha, 2022

Liminal Space: Diving Within, de Anahita Safarnejad Choobary © Direitos Reservados

Liminal Space: Diving Within é um baú de memórias em formato de vídeo VHS, que se abre com cuidado e carinho, numa narrativa igualmente familiar e individual. Apresentando-se como um poema audiovisual, esta curta-metragem explora a relação entre pai e filha, dor e luto, câmara e memória. Após perder o pai, Anahita embarca numa jornada de redescoberta, revendo o seu passado através da câmara do pai. Uma história sobre a transformação necessária para superar o peso da morte, e o mundo que se pode encontrar no vazio deixado pela perda.

“Give me the camera so I can film you, too!”, pede Anahita ao pai, numa das filmagens que ele lhe deixa. Assim se percebe a relação de quem vê e se deixa ver, de quem ama e se deixa amar. A memória revela o rosto de quem se quer lembrar, refletido na expressão de quem só vemos com os olhos fechados.

Margarida Rodrigues

Flashes
Dmitriy Lebedev | Uzbequistão, 2023

Flashes, de Dmitriy Lebedev © Direitos Reservados

Um filme de flashes. Um ballet de tempos, e também de planos: entre o real e a imaginação. Um filme dinâmico e movimentado, onde os movimentos de câmara são acompanhados pelo trabalho de pós-produção em níveis igualmente barrocos. É um filme que se rege pela junção destes pólos, que chocam, de forma rápida, forte e contínua, até se tornarem normalizados. O corte para de ser a passagem de uma realidade para a outra, mas a sobreposição das duas em simultâneo. E tão rapidamente como o filme construiu esta ilusão, manda-a abaixo, ficando apenas as personagens (e o espectador) desoladas nas suas ruínas.

Vasco Muralha

Quando a Terra Sangra
João Vicente Morgado | Portugal, 2023

Quando a Terra Sangra, de João Vicente Morgado © Direitos Reservados

Num passado distante, a sangria tinha um papel preponderante nas práticas curativas da peste negra. Entre a medicina e a espiritualidade, acreditava-se que a perda de sangue conduziria à libertação dos males humanos. Sangue e cura, lado a lado. O sangue era impuro e inaugurava o caminho para a pureza. Em Quando a Terra Sangra, é a terra que sangra. Nesta tentativa alucinogénia de purificação, a condenação é a única certeza. Mergulhamos numa vila entregue à peste e condenada à morte. Aqui, a imunidade poderá tornar-se uma penitência. E resta um, um apenas: condenado à vida.

Maria Inês Mendes  

As seguintes folhas de sala são uma parceria com o CINENOVA – Festival de Cinema Interuniversitário Português

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