MOTELX: Bodies Bodies Bodies e a estupidez cómica da geração Z

Foi com a estreia nacional do novo filme da A24, Bodies Bodies Bodies, que decorreu a sessão de abertura oficial da 16ª edição do MOTELX, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, no Cinema São Jorge. O slasher da geração Z, segunda longa-metragem da atriz e realizadora holandesa Halina Reijn, foca-se num grupo de jovens ricos que planeiam uma festa durante uma tempestade na mansão de família de um deles. Ao jogarem Bodies Bodies Bodies, jogo que dá título ao filme, algo corre mal e o pânico instala-se.

Bodies Bodies Bodies, de Halina Reijn – © 2AM, A24

Reijn inspira-se nos clássicos do sub-género slasher e transporta o espírito de sucessos como Scream (1996) para uma geração de jovens tik-tokers que usam e abusam de palavras como “toxic” e “gaslighting”. O humor do filme está precisamente na forma como reflete esta geração e os preconceitos que existem sobre ela, e é, precisamente, nos diálogos que o filme atinge a sua inteligência e perspicácia máximas. A trama conta com sete personagens principais: Sophie e Bee (Amandla Stenberg e Maria Bakalova), David, o dono da mansão e a sua namorada Emma (Pete Davidson e Chase Sui Wonders), Alice (Rachel Sennott) e o seu namorado mais velho, Greg (Lee Pace) e Jordan (Myha’la Herrold), praticamente todos eles estrelas jovens em ascensão. E, portanto, à escrita inteligente aliam-se performances certeiras, com destaque para Rachel Sennott (a protagonista de Shiva Baby), que aqui interpreta a dramática Alice e que arrecadou quase todos os aplausos e gargalhadas dos espectadores.

O dispositivo da “procura por um assassino” (quase como um Cluedo ao vivo) entre aqueles que constituem o grupo faz com que o mesmo se desmorone e os segredos de cada um venham ao de cima porque, na verdade, esta é a sociedade dos likes e da superficialidade, onde tudo parece ser vazio e desprovido de emoções sinceras. Quando o medo e o pânico se instalam, os filtros das redes sociais deixam de ser suficientes para mascarar a mesquinhez desta juventude invejosa e psicologicamente afetada que exagera no álcool, nas drogas e nos antidepressivos.

Bodies Bodies Bodies, de Halina Reijn – © 2AM, A24

O mais interessante neste tipo de filmes é a interatividade que a câmara nos proporciona. O próprio espectador faz parte do processo de descoberta do assassino e a câmara “brinca” com ele, entrando num jogo de mostrar o que quer e escolher o que esconder. Faz-se sentir quase uma claustrofobia vinda da escolha de planos, na qual parece sempre escapar-nos alguma coisa em volta. Dessa forma, Bodies Bodies Bodies relembra-nos as adaptações de Agatha Christie, como And Then There Were None, e o mais recente Knives Out, com um contorno moderno, pop e excêntrico. A banda sonora é exemplo disso, contando com o êxito “Hot Girl” de Charlie XCX que colocou os espectadores do Cinema São Jorge com vontade de saltar fora da cadeira.

Bodies Bodies Bodies é um exemplo evidente de como o casamento entre o humor e o terror pode ser um dos mais felizes. Esta união valeu-lhe múltiplos aplausos vindos de uma sala de cinema lotada e cheia de entusiasmo para o início deste festival que é tão aguardado pelos portugueses. São mais de 100 filmes que compõem esta edição do MOTELX. Com aguardadas estreias nacionais e internacionais, o festival dedica-se a uma revisitação da história do terror português, ao lançamento de um livro e de muitas sessões especiais, cine-concertos e masterclasses. Para além do novo filme do mestre do terror italiano Dario Argento, Dark Glasses, filmes como o filme de zoombies francês Final Cut (2022), a comédia de ficção científica que conta com a presença dos realizadores, Something in the Dirt (2022), e ainda o filme de animação português, Os Demónios do Meu Avô (2022) aparecem-nos como alguns dos nomes sonantes desta edição que termina no dia 12 de setembro, próxima segunda-feira, no Cinema São Jorge.

Inês Moreira

[Foto em destaque: Bodies Bodies Bodies, de Halina Reijn – © 2AM, A24]

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