MOTELX: Something In The Dirt e o lançamento do livro “O Quarto Perdido do Motelx”

A dupla de realizadores Aaron Moorhead e Justin Benson não é desconhecida para o público português, há menos de cinco anos estreavam no MOTELX a sua terceira longa-metragem The Endless (2017). Este ano voltaram em grande com a comédia de terror e ficção científica Something In The Dirt e a sua presença em duas sessões contou com a sala quase cheia. O filme tem dois protagonistas: John e Levi, dois vizinhos interpretados pela própria dupla de realizadores. Quando John e Levi testemunham algo sobrenatural no apartamento de Levi, os dois decidem começar um documentário sobre estes acontecimentos.

O mais curioso, na mais recente longa-metragem da dupla de realizadores americanos, é a fórmula caseira segundo a qual foi feita. Com um orçamento baixíssimo e uma equipa muito pequena, os próprios realizadores comentam que, muitas vezes, se encontravam os dois sozinhos no décor e se filmavam um ao outro.  Assim, o filme chega-nos com essa aura independente agregada que joga a favor de si mesmo. A história, por outro lado, parece ser desvalorizada no processo. A premissa do filme é a seguinte: dois estranhos percepcionam acontecimentos paranormais. No entanto, a causa destes acontecimentos nunca é realmente explorada, o que dá a sensação que o filme perde um pouco o foco e se estende sem razão aparente. Os próprios realizadores afirmam que não é tanto a causa daquilo tudo que lhes interessa, mas o processo e as proporções que estes acontecimentos acabam por ter naquelas  duas personagens.

Apesar de se antecipar entusiasmante, o filme acaba por cair um pouco no vazio ao escolher não explorar nem este lado sobrenatural, aparentemente o seu tema principal, nem as motivações e o passado das suas duas personagens. É certo que a interação entre os dois é fulcral e visível, sendo que ambos são levados ao extremo a nível emocional, contudo, continua a existir uma certa distância entre o espectador e John e Levi. No final do filme o sentimento é ligeiramente agridoce.

Something In The Dirt, de Aaron Moorhead e Justin Benson – © Rustic Films

Ainda assim, esta edição do MOTELX continua a surpreender e, neste mesmo dia, um passo grande na historiografia do cinema em Portugal foi dado. Na sala 2 do Cinema São Jorge, ocorreu o lançamento do tão aguardado livro “O Quarto Perdido do MOTELX”, um livro que se dedica à investigação do cinema de terror português antes mesmo de este existir como género (noto que se acreditava que o primeiro filme de terror português seria Coisa Ruim (2006), de Frederico Serra e Tiago Guedes, filme que esteve também em exibição nesta edição do MOTELX). Com textos de vários investigadores conhecidos da academia, o livro conta com uma recolha de filmes desde 1911 a 2006, ano do suposto “primeiro filme de terror português”, e ano em que nasceu o MOTELX. Em 2009, na 3ª edição do festival, é inaugurada uma secção intitulada Quarto Perdido na qual se exploram estes filmes e autores. O livro acaba por retomar esta proposta baseando-se numa lista de filmes do historiador de cinema José de Matos-Cruz que foi cedida pelo realizador António Macedo, “um autêntico mapa de um tesouro desconhecido, um inventário de cinema fantástico”, como é descrito nas primeiras páginas do livro.

Na sessão, estiveram presentes os dois coordenadores do livro, João Monteiro e Filipa Rosário, e ainda José Manuel Costa, diretor da Cinemateca Portuguesa, que deu ao público uma autêntica aula sobre cinema e historiografia do cinema, cinema de terror em Portugal, e explorou ainda a questão da dificuldade em definir géneros no cinema português. A ideia com que ficamos no final desta sessão e que Filipa Rosário sumariza bem quando nos diz “o mais extraordinário é o que a academia pode ser quando não se fecha sobre si mesma” é a de que, desde que haja entusiasmo e paixão, há sempre mais para investigar nesta arte imensa que é o cinema.

O Quarto Perdido do MOTELX – © Direitos Reservados

Inês Moreira

[Foto em destaque: Something In The Dirt, de Aaron Moorhead e Justin Benson – © Rustic Films]

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