Rebentos: Mostra Internacional de Cinema Emergente – Sessão 5

FRUTO DO VOSSO VENTRE, 2021

um filme de FÁBIO SILVA

A partir da casa familiar, das filmagens caseiras do pai até então desconhecidas, das fotografias dos irmãos que nunca conheceu ou dos planos do bairro onde os pais em tempos viveram, Fruto do Vosso Ventre, de Fábio Silva, desenvolve-se como uma narrativa arqueológica que procura dar significado — ou sentido — ao vazio deixado pela figura paternal. Poder-se-ia dizer que o filme é uma espécie de Carta ao Pai, um confronto não apenas com essa mesma figura, tão vaga e pesada quanto distante e dolorosa, mas também e acima de tudo com a “fuga, geralmente para dentro” e com a “pressão geral provocada pelo medo, pela fraqueza e pelo desespero” (Kafka) que recai sobre a figura do filho. Mas se, por um lado, o filho procura compreender essa ausência mergulhando no passado, abrindo gavetas, vendo cassetes antigas e desabafando com a mãe, por outro, ele acaba lentamente por preenchê-la, tornando-a, por isso mesmo, ainda mais evidente através da sobreposição das filmagens caseiras do pai aos planos do filme, nomeadamente aquela com que fecha o filme e que, nas palavras de Fábio, é “hoje impossível, mas que toda a vida desejei”.

João Ayton

MEIO ANO-LUZ, 2021

um filme de LEONARDO MOURAMATEUS

Num estilo documental que relembra o cinéma verité dos anos 60, Half a Light-Year chega-nos pelos olhos do brasileiro Leonardo Mouramateus. E será esta curta-metragem uma viagem por metade da distância que a luz percorreria num ano?

É inegável a relevância dada ao espaço e ao tempo nestes 18 minutos de filme. Em relação ao primeiro, há uma ligação muito próxima à cidade, uma Lisboa filmada com carinho e com verdade. Filmam-se os seus recantos e as pessoas que os preenchem no seu dia-a-dia, quase como se estivéssemos perante uma sinfonia da cidade ou uma carta de amor à Lisboa contemporânea.

Quanto ao tempo, este é utilizado como instrumento da narrativa. A dada altura no filme, as personagens autointitulam-se “viajantes do tempo” e parece que a câmara aprende a viajar com elas, por vezes para lugares e tempos diferentes daqueles que elas nos falam. O que vemos nem sempre é o que ouvimos. Um homem, sentado num degrau numa esquina, desenha no seu caderno, enquanto ouvimos um casal falar sobre uma carteira perdida. No final do filme, percebemos que visualmente a história que acabámos de ouvir começa ali, naquele plano da carteira perdida de que já tínhamos ouvido falar.

Há uma vertente quase de fantasia, engano e ficcionalização presentes no filme, apesar do seu género documental. As vozes que ouvimos levam-nos para diferentes lugares, e os desenhos que vemos confundem-se com esses lugares e com essas histórias. Fazer cinema é contar histórias e as personagens deste filme fazem isso muito bem.

Inês Moreira

CORPSELAND, 2020

um filme de YANG LIU

Uma respiração ofegante é o que ouvimos quando o filme inicia, todavia essa exaustão não abandona o espectador até ao final do filme. Corpseland monta um cenário distópico, onde coisas estranhas acontecem a um ritmo alucinante. 

O grafite é a primeira técnica utilizada por Yang Liu para animar este cenário feito de partes de cadáveres, como o próprio título indica, e por ser uma técnica tão crua ajuda a criar uma sensação de angústia e sofrimento, que vai acompanhar a exaustão sentida inicialmente. E mesmo que no final da primeira parte, a cor apareça e a técnica se aproxime de um desenho mais realista, a sensação de angústia não desaparece. É até mais assustador porque nos parece mais próximo e mais real.

Apesar de ser uma animação distópica, Corpseland acaba por refletir os medos da nossa sociedade. As partes do corpo que marcam o campo visual do filme acabam por chamar a atenção para a desumanização desta representação, transformando-se no seu tema chave. Os gestos daqueles a quem podemos chamar personagens são robóticos, e o seu andar relembra o andar de um zombie. 

O filme carrega ainda uma metáfora religiosa, talvez como forma de condenar a maneira como esta religião sobrevive nos dias de hoje. Associamos muitas vezes àqueles que seguem cegamente a fé, uma sensação de brainwash. Os motivos religiosos, como cruzes, remetem para os perigos daqueles que seguem algo sem questionamento. 

Este cenário de Corpseland revela-se recheado de conotações políticas e sociais que terminam no lugar que é a sala de cinema. Poderá esta ser uma chamada de atenção para nós mesmos enquanto espectadores? Se olharmos do ecrã para o espectador, nós somos o espectador, nós somos a sociedade, nós somos talvez quem perpetua estas ideias distorcidas que, segundo Yang Liu, um dia transformarão a distopia em realidade.

Inês Moreira

A VIDA É COISA QUE SEGUE, 2019

Um filme de BRUNA SCHELB CORRÊA

A Vida é Coisa que Segue, de Bruna Schelb Corrêa, é um filme sobre a vida e sobre a morte, das possíveis relações que os vivos podem ter com a morte e, também, com os mortos. Como (re)lembrar os nossos mortos? Como seguir com a vida sem aqueles e aquelas que a preencheram? Como não olhar para determinados objetos sem que eles não evoquem quem ficou para trás? Mas, também, como não olhar para o horizonte e não vislumbrar uma pessoa que julgamos morta? É destas relações e imagens de que trata o filme, que é, talvez por isso mesmo, um retrato de um “ritual de passagem”, da passagem do luto à aceitação de que as coisas seguem com e apesar dos que ficam para trás.

João Ayton

Nota: A folha de sala inclui textos de autores que não pertencem ao CINEblog IFILNOVA.

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