Amiko: Quando a infância é assombrada

Amiko, o primeiro filme do realizador Morii Yusuke, representa em cores vibrantes o mundo de uma criança com um olhar único, desenquadrada da família e colegas de escola. Apesar do isolamento de Amiko, que se acentua enquanto cresce, o filme mantém sempre um tom mágico, fiel à perspetiva excêntrica e inocente da sua protagonista.

A estreia de Morii como realizador surge de uma adaptação do romance de Natsuko Imamura, expandindo a imaginação de Amiko (Osawa Kana) para o universo do visual. No ecrã, o olhar de Amiko conduz o filme, convidando o espectador a acompanhar a sua exploração juvenil, e ao mesmo tempo distanciando a audiência das restantes personagens. A personalidade de Amiko define o tom de todo o filme, que se desenrola tão imprevisível e implacavelmente como a vida de uma criança desamparada.

Amiko vive em Hiroshima, no Japão, com os pais e o irmão mais velho, numa rotina que não lhe assenta. Em tudo o que faz, Amiko rompe as normas que lhe são impostas. Impulsiva, inoportuna e impaciente, Amiko não percebe por que razão os que a rodeiam não a acompanham.

Amiko (2022), de Morii Yusuke © Direitos reservados

Quando uma tragédia cai sobre a sua família, a realidade colide com o mundo de Amiko, alienando-a ainda mais profundamente. Com a mãe fechada no quarto, o pai absorvido no luto, e o irmão fora de casa, Amiko perde todo o contacto que lhe oferecia alguma orientação. Esquecida entre um mundo fantástico e uma realidade assombrada, as dores de crescimento de Amiko intensificam-se. Parecendo encolher na sua roupa, sem tomar banho e ignorando a escola, Amiko torna-se mais um fantasma em sua casa.

É no espaço entre imaginação e realidade que Amiko tenta fazer sentido da sua dor. O seu mundo enche-se de fantasmas, coloridos e extravagantes, que se fazem ouvir quando Amiko está só, e aparecem apenas a si e à audiência. Sem saber o que mais fazer, Amiko canta “Os fantasmas não são reais… Mas eu tenho um pouco de medo”.

Apesar de todo o seu peso, Amiko permanece uma história encantadora, uma procura pela beleza mesmo nos momentos mais dolorosos, uma lição de que a esperança pode existir mesmo nas paisagens revestidas de fantasmas.

Margarida Rodrigues

Ice Merchants: O abrigo da rotina

Ice Merchants, a curta-metragem de animação de João Gonzalez, fez história ao tornar-se o primeiro filme português a ser nomeado para um Óscar. O filme é um exercício estilístico que cria uma atmosfera sentimental e desenha uma história profunda sem qualquer diálogo ao longo dos seus 15 minutos de duração. 

Fruto de técnicas de animação tradicionais, Ice Merchants recorre apenas à imagem, de traços suaves e cores contrastantes, ao som e à banda sonora, composta pelo próprio realizador, para contar a história de um pai e filho que, todos os dias, saltam de paraquedas da sua casa encastrada num precipício, para vender gelo na aldeia situada aos pés da montanha. O primeiro plano do filme mostra o filho a oscilar tranquilamente num baloiço construído por baixo do alpendre da casa, planando sobre as luzes da aldeia distante. De imediato, João Gonzalez convida o espectador a mergulhar no encanto surreal do filme, assimilando a realidade destas duas personagens. 

Ice Merchants desenrola a rotina repetitiva do pai e filho de forma despreocupada, tão leve como o desenho que dá vida a todas as cenas. Apesar dos ângulos vertiginosos e dos sons ameaçadores que percorrem toda a casa, o filme expõe-se ao espectador com a mesma tranquilidade com a qual pai e filho saltam para o espaço vazio que os espera para além do seu alpendre. Uma e outra vez, os dois saltam juntos, rasgando o ar gélido e agreste entre a sua casa e a aldeia, perdendo os seus chapéus pelo caminho, até que o pai abre o paraquedas e aterram no chão com uma confiança muda. A sua passagem pela aldeia é metódica – o filho entrega o gelo e recolhe o dinheiro, o pai usa parte dos lucros para comprar novos chapéus. Ao fim do dia, já estão de regresso a casa.

Ice Merchants (2022), de João Gonzalez @ Direitos Reservados

No entanto, sobre tudo o que os dois fazem, paira um peso inexpressável, um vazio representado por uma caneca amarela que nem o pai nem o filho usam. Este espaço negativo assombra a história mais do que o mais alto precipício. Mesmo sem falarem, o luto das personagens é claro, e talvez por não ser expresso em palavras, essa emoção torna-se maior do que a própria falésia.

Apesar da altitude arrepiante, da dor e saudade que as personagens carregam, Ice Merchants permanece sempre uma história esperançosa, iluminada mesmo no espaço mais inóspito, um contraste realçado pelas cores quentes das personagens sobre os tons frios do ambiente que as rodeia. João Gonzalez consegue contar uma história única, visualmente algo surreal, transmitindo os sentimentos mais profundos através das ferramentas que distinguem o cinema como arte; a imagem viva e o som.


Margarida Rodrigues

[Foto em destaque: Ice Merchants (2022), de João Gonzalez @ Direitos Reservados]