Curtas Vila do Conde: Alcarràs, Terra firme, Casa amada

Foi com a estreia nacional do filme Alcarràs de Carla Simón que decorreu a sessão de abertura oficial do 30º Curtas Vila do Conde. A projeção do último trabalho de Simón, premiado na Berlinale com o Urso de Ouro, não só marca o início do festival como do programa In Focus, dedicado este ano à realizadora catalã que, por ter sido mãe há poucos dias, teve presente no festival através de videochamada para uma conversa com o público no final da sessão.

Também à distância na apresentação do filme, a realizadora fez questão de falar sobre o desaparecimento do tipo de agricultura familiar que é apresentado na obra, face ao crescimento da agricultura industrial financiada por grandes empresas que ameaçam engolir todo o mercado e tornar insustentável a forma de subsistência destas famílias. O modelo familiar de trabalho representado em Alcarràs e esse mundo que tende a desaparecer é um ponto central para toda a tensão existente na narrativa e nas relações entre as personagens.

Alcarràs acompanha os Solé, uma família de agricultores e produtores de pêssegos que se deparam com a possibilidade do fim do seu negócio. O atual dono das terras vê ali o lugar ideal para a instalação de painéis solares, o que obriga a família a repensar o seu futuro e a abandonar as terras que estavam sob a sua posse desde a guerra civil espanhola. O facto da tecnologia que se pretende instalar ali ser benéfica e até urgente para o planeta, de forma a combater o avanço das alterações climáticas, torna mais complexo o dilema moral presente no filme. O que parece é que a evolução das tecnologias e das formas de produção provocam certos problemas para os quais nós, enquanto sociedade, teremos que encontrar soluções.

Carla Simón explica que a vontade de fazer este filme nasceu quando o seu padrinho morreu e, querendo ela valorizar o seu legado, percebeu que aquelas plantações de pêssegos não durariam para sempre e daí surge a urgência de filmar aquele lugar e aquelas pessoas. Simón refere que o filme é “um retorno à infância e uma reivindicação de um espaço de encontro familiar”.

Alcarràs, Carla Simón © Avalon PC, Elastica Films, Vilaüt Films

Essa incidência no ponto de vista familiar, através de um trabalho minucioso e eficaz feito com não-atores, habitantes da aldeia que não deixam de nos admirar com as suas atuações, fazem o filme aproximar-se bastante da realidade autobiográfica que a realizadora procurava. O que se destaca, de forma particular, em Alcarràs é essa capacidade para filmar as pequenas histórias e momentos do quotidiano,  a infantilidade dos adultos que pensam ver ovnis, as suas zangas e fúrias, as preocupações corriqueiras do quotidiano até às manifestações daqueles trabalhadores revoltados e às brincadeiras do trio de crianças, que a câmara de Simón vai captando subtil e atentamente, quando aquelas roubam melancias e destroem hortas. É justamente aí que residem os momentos mais belos do filme, pela ternura que emana das suas brincadeiras e fantasias.

Contudo, o filme parece não ter um momento verdadeiramente explosivo, de catarse narrativa, fazendo com que a luta e urgência moral pelo modo de subsistência daquelas pessoas se pareça esvair de forma resignada, devido a essa tal complexidade do problema. Também a sua forma, intimista, de câmara à mão, inspira-se no cinema de maior realismo social com certos vislumbres de neorrealismo italiano, que aqui serve de inspiração visual e ética. 

É justamente a forma como este modelo de agricultura é visto no presente que provoca essa vontade de olhar a memória daquele tipo de vida e trabalho através de episódios entre o cómico e o dramático. Ainda assim, os últimos planos, com a família resignada a ver o monstro-máquina invadir as suas vidas, são suficientemente fortes para nos deixar uma boa sensação final. 

Alcarràs acaba por ser, nas palavras da realizadora, a crónica de uma morte anunciada, uma impossibilidade de lutar contra a evolução difícil, mas necessária, onde deve pousar um olhar atento e responsável para que seja possível encontrar as respostas desejadas face aos problemas de todos. Uma homenagem sentida à “terra firme, casa amada” como se canta a dada altura, e à nossa dependência dela.

O programa In Focus, dedicado à realizadora Carla Simón, continua esta quarta-feira com a exibição das suas curtas-metragens.

Ricardo Fangueiro

[Foto em destaque: Alcarràs, Carla Simón © Avalon PC, Elastica Films, Vilaüt Films]

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