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Curtas Vila do Conde: Panorama Nacional, Um Bom Aperitivo

Fora da chamada Competição surge a possibilidade de ver alguns filmes portugueses que se destacaram já por outros festivais internacionais e que têm aqui a possibilidade rara de, mais uma vez, serem vistos no grande ecrã. Um privilégio para os realizadores e sobretudo para os espectadores que, dessa forma, têm acesso em sala ao cinema de curtas-metragens, bastante limitado pelas suas características de distribuição.

O Homem do Lixo, Laura Gonçalves © Bando à Parte

O  Homem do Lixo de Laura Gonçalves é a história do almoço de uma família portuguesa e das peripécias do “tio Botão”, que esteve emigrado em França na época da ditadura salazarista, onde trabalhou como homem do lixo. Num registo de animação de traços elementares, o filme tem a capacidade de nos agarrar à comicidade e intimidade contidas nas histórias que nos são contadas por aquelas pessoas. Pessoas essas a quem a realizadora fez questão de dar literalmente voz, recorrendo a áudios gravados das conversas de família, partindo desse fascínio que sentia pelas histórias que ia ouvindo dos seus familiares. Ficamos assim a saber das histórias do seu tio na guerra colonial e da mala cheia de abacaxis, única coisa que trouxe da guerra. O cinema de animação continua a mostrar ser um meio único para expressar sentimentos comuns a todos através da força visual dos traços animados que podem simbolizar qualquer família e qualquer lugar. Este é um filme terno, doce, familiar, um importante registo da memória daquelas pessoas e testemunho de uma era socialmente e economicamente conturbada que precisa de ser olhada e pensada.

A curta de Pedro Neves Marques, Tornar-se um Homem na Idade Média, mostra-nos dois casais na casa dos trinta anos: Mirene e André, um casal que procura resolver os seus problemas de infertilidade, e Carl e Vicente, que se submetem a uma técnica experimental para que seja possível a Vicente ter um filho de Carl. Filme arriscado, mas que agarra o espectador logo desde o início pelo dilema moral que é imposto a André, vegetariano, a quem propõem comer um pedaço de carne, feita totalmente em laboratório, desafiando a lógica daquele, pois neste caso nenhum animal foi morto para a produção daquela carne. Contudo, garantem-lhe, aquilo é carne verdadeira. Logo percebemos no filme a sua dimensão de ficção científica, futurista ou nem tanto, em que a ciência e as práticas de laboratório prometem encontrar soluções para muitos dos problemas da sociedade atual, num filme de diálogo e premissas científicas, visualmente apelativo tendo a paisagem lisboeta como pano de fundo. O filme vai revelando a sua força no ritmo sereno e pautado com que nos vai dando a conhecer as angústias e desejos das personagens, e na forma como transporta o espectador para essa sociedade rendida aos milagres da ciência. Tornar-se um Homem na Idade Média prende-nos à sua extensão especulativa e a todo o potencial pensamento provocado pela sua narrativa não normativa.

Azul, Ágata Pinho © Uma Pedra no Sapato

Azul de Ágata Pinho é um filme ambicioso com uma narrativa entre o onírico, o consciente e o inconsciente. Uma obra do corpo, da sua fisicalidade e da sua relação com os elementos. Ara, interpretado pela própria realizadora, acredita que vai desaparecer no dia do seu vigésimo oitavo aniversário e a sua existência física é o centro do filme – obsessão da câmara que a persegue. A partir da crença no seu desaparecimento, o filme é uma busca da personagem pelas “sensações mais elementares da existência na água, no sol e no sublime”, visualmente marcado pela presença da cor azul nos cenários, no guarda-roupa, objetos e elementos. De caráter autobiográfico, mas de “roupagem ficcional”, esta primeira aventura na realização de Ágata Pinho, tem a sua maior força na forma como filma o corpo, fazendo lembrar, por vezes, o body horror do cinema de Julia Ducournau. As particularidades da personagem, que parece ir em busca de apaziguar o seu estado emocional, e a relação que mantém com o seu corpo, fazem deste, um filme a ser sentido e experienciado na sua especificidade.

By Flávio, Pedro Cabeleira © Kometa Films, Primeira Idade

A fechar a sessão esteve a curta de Pedro Cabeleira, By Flávio, que nos mostra Márcia, uma mãe com ambição de ser uma influencer digital que conhece um rapper e marca com este um encontro num shopping. Não conseguindo ninguém para tomar conta do seu filho, vê-se obrigada a levá-lo com ela. Obra audaz, formalmente ousada, que procura novos dispositivos narrativos e sem receio de parecer uma caricatura dos nossos tempos, By Flávio destaca-se pelo seu humor, em particular na cena muito bem conseguida, pelo lado cómico que gera, em que o rapper explica, de forma entusiasmada e elétrica, as suas ideias para o novo videoclip em que ela será a protagonista, mostrando toda a sua excentricidade que mistura Lamborghinis, cenas no Dubai (que na verdade serão filmadas em Xabregas com chroma key), body sushi e shotguns. O que vai parecendo evidente é que o filme de Cabeleira está longe de ser uma caricatura dos nossos tempos em que a vaidade presente nas redes, o lugar do telemóvel enquanto espelho social e a interface de Instagram representada na tela de cinema, parecem cada vez mais um elemento onde nos revemos e conseguimos encontrar fortes doses de realidade.

Numa amostra diversificada do que se tem feito por cá, não surpreendendo nem desiludindo, o Panorama Nacional mostrou filmes capazes e imprescindíveis, conseguindo deixar água na boca para o resto do festival.

Ricardo Fangueiro

[Foto em destaque: Tornar-se um Homem na Idade Média, Pedro Neves Marques © Foi Bonita a Festa]

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