La maman et la putain e as pessoas que fazem amor de olhos fechados

Em antecipação da estreia do seu restauro a 4K em Portugal, revisitamos La maman et la putain. Este que marca o primeiro e penúltimo passo de Jean Eustache no mundo das longas-metragens ficcionais, mas nunca impessoais, é, inegavelmente, o monólito incontornável da sua carreira, onde os amores e desamores de toda uma geração pavimentam as ruas pelas quais as personagens caminham. Alamedas parisienses, lotadas, sem destino à vista.

Em Alexandre, encontramos o arquétipo do flâneur contemporâneo, que trauteia de café em café, entre conhecidos, numa inquieta ociosidade. Não tem trabalho, mas planeia ler todas as tardes como se fosse um part-time. Não tem casa, mas vive no apartamento da sua parceira Marie. Está de coração partido, mas inicia um romance com a jovem enfermeira Veronika.  

Uma imagem com pessoa, exterior, carro, rua

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La maman et la putain, Jean-Pierre Léaud, Françoise Lebrun © Les films du losange

Estas são as crianças de Marx e Coca-cola depois de passarem pela puberdade e descobrirem que ser crescido é, infelizmente, apenas mais complicado. O ano é 1973 e as chamas do Maio de 68 já se reduziram a cinzas, por entre as quais a fénix malformada da liberdade sexual nasce. É como um novo instrumento que as personagens ainda não sabem utilizar, mas que, mesmo assim, manuseiam livremente, ignorando o sinal de perigo. E de todos, Alexandre é, sem dúvida, o mais descuidado.  

Não fala senão em monólogos e parece viver uma perpétua atuação da sua pessoa, constantemente à procura daquilo que o fará parecer mais inteligente e inovador, cultivando em si um misto peculiar de espontaneidade pensada, como só Jean-Pierre Léaud o poderia transmitir. Palavra a palavra, vai lançando os dados no seu jogo de ego, a cada momento escolhendo qual das mulheres, Marie ou Veronika, o poderá complementar melhor, consoante as cartas que elas próprias atiram à mesa. Assim, ao longo de atos inócuos, cigarros e copos de uísque, as dinâmicas de poder entre os três flutuam, à medida que os seus complexos sentimentos também oscilam. 

Eustache, apelidado por Serge Daney no seu obituário como um “etnólogo da sua realidade”, oferece-nos aqui um retrato generoso e bíblico, exatamente dessa natureza, onde o tempo é esculpido por diálogos e não minutos, livre dos constrangimentos e exigências do convencional arco narrativo. Procura autenticidade num campo de inautenticidade e, nos rostos dos atores, algo a ser desvendado. Portanto, é na simplicidade que encontra a sua profundidade, nos planos maioritariamente fixos, que parecem estar pacientemente à espera do que se segue. No seu realismo, o filme tenta residir ao máximo no instante, no próprio local que habita e nada mais. Se ouvimos música, não é somente para mergulhar num certo ambiente, mas porque a algum dos seus residentes lhe apeteceu pôr o disco a tocar.

Uma imagem com pessoa, interior

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La maman et la putain, Jean-Pierre Léaud, Bernadette Lafond, Françoise Lebrun © Les films du losange

Neste sentido, as emoções têm espaço para respirar e se esticarem, apesar da sua resistência a serem reveladas. Habitam, por preferência, o subtexto da obra, por baixo da camada vápida que tenta servir de máscara. E embora as personagens se esforcem para demonstrar uma imagem clara daquilo que são e querem, a verdade é que residem mais na ambiguidade do que se apercebem, no conflito interior entre os diferentes papéis que ainda não libertaram. 

Afinal, o título é La maman et la putain, não La maman ou la putain, pelo que o confronto que inicialmente se parece situar entre duas identidades, no fim torna-se claro convergir numa só e ninguém o representa tão bem quanto Veronika. Não é mera coincidência que Françoise Lebrun, ex-amante do realizador, aqui na sua estreia enquanto atriz, seja o oposto dos queridinhos da nouvelle vague com quem contracena, o Alexandre de Jean-Pierre Léaud e a Marie de Bernadette Lafond. É ela a mais sensível dos três, a que mais se vulnerabiliza, uma vítima autoflagelada e desorientada, perante a confusão que tenta navegar. 

Acima de tudo, Eustache parece-nos querer mostrar o que acontece depois de uma revolução acabar sem estar completa, quando as desilusões e as ilusões fazem parte do dia-a-dia e fazer amor de olhos fechados se transforma em prática habitual, mais masturbatória do que conjugal. O filme não oferece soluções, nem castigos, estando menos interessado em lançar julgamentos morais do que a desfiar uma crise. Deixa-nos, no entanto, a incerteza sobre o estado do futuro. Quando o ecrã fica preto, é um ponto final ou uma vírgula? 

Margarida Nabais

[Foto em destaque: La maman et la putain, Jean-Pierre Léaud, Bernadette Lafond, Françoise Lebrun © Les films du losange]

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