Antevisão Doclisboa’22: o sonho escorre pelas brechas da realidade em mundos uma vez privados de si

os pombos não nos pertencem
roubá-los será inútil por enquanto
e que valem os pombos para a fome de uma geração inteira?
Orlando Parolini, Descrição da Praça da República para a amada que mora no interior 

Na noite da última sexta-feira, primeiro dia do mês de julho, apresentou-se na esplanada da Cinemateca Portuguesa, como habitualmente, a sessão de antevisão do Doclisboa’22, que acontece de 6 a 16 de outubro. Nesta edição, o festival celebra os seus 20 anos com a exibição de duas grandes retrospetivas: um tributo ao realizador brasileiro Carlos “Carlão” Reichenbach e uma mostra dedicada à Questão Colonial, no âmbito da Temporada Portugal-França 2022, com filmes que contam e recontam as histórias das invasões e colonizações portuguesa e francesa. Em certa medida, ambos os programas – cujos títulos datam desde as décadas de 50 ou 60 até à contemporaneidade – partilham a qualidade de testemunho, rastos de mundos que ainda cicatrizam as feridas abertas pelos saqueamentos empreendidos pelo Norte global. Do Brasil, com as curtas-metragens Sangue Corsário (1980) e Sonhos de Vida (1979), a Niger, com o filme de estreia de Oumarou Ganda como realizador, Cabascabo (1968), um destino comum marca a trajetória dos protagonistas: a premência da realidade que se impõe sobre o sonho almejado. 

Cabascabo, de Oumarou Ganda. © Direitos Reservados, Argos Films

No primeiro filme, pioneiro no retrato de uma geração pós contracultura, pós Cinema Novo e pós ditadura militar, Orlando Parolini, poeta e grande amigo de Reichenbach – e que encontra mais suporte para os seus escritos no cinema do que nos livros –, erra pela cidade de São Paulo na companhia de um velho companheiro de resistência, agora engravatado, bancário e pai. Dos “mais malditos entre os malditos”, o poeta quase não interage com o seu conhecido, que é todo admiração e elogios por Parolini. Não conversa, declama. É sozinho. E logo também o bancário o abandona: a sua hora de almoço acabou. Há que se deixar os tempos de liberdade e voltar ao trabalho sério que sustenta a família. O tempo também está contado na pequena viagem turística de duas mulheres operárias da periferia paulista. Em Sonhos de Vida, as jovens decidem embarcar numa aventura logo após se reconhecerem no comboio. A aventura, porém, guarda uma incumbência prática: a protagonista precisa buscar água potável para levar de volta à terra onde vive com a mãe. Rapidamente, a espontaneidade do itinerário imaginado vê-se comprometida. 

Também Cabascabo, soldado que regressa à sua aldeia natal depois de integrar as tropas francesas na guerra da Indochina, assiste ao gradual desaparecimento do seu dinheiro e boa reputação na medida em que escolhe viver do prazer e da generosidade. Para o personagem, as economias não interessam, verdadeiramente. O crítico e jornalista Manuel Cintra Ferreira supunha que o motivo para tal desambição fosse uma mentalidade ainda próxima de um sistema “primitivo” de troca, nas suas palavras. Contudo, suspeitamos de que também se tratasse de uma ingênua confiança no seu próprio futuro – Cabascabo chega a afirmar que um ex-soldado como ele lograria, facilmente, qualquer emprego como segurança ou polícia. É rejeitado. No desfecho do filme, resta-lhe apenas o machado e o trabalho, “para o qual parte sem lamento nem deitar culpas a ninguém”, ainda a parafrasear Ferreira. 

Em todos os casos, portanto, o trabalho aparece como força de resignação. O desejo ardente por uma renovação radical da vida transforma-se numa frágil, fraca chama, que passa a conviver com a conformidade. O sonho a escorrer pelas brechas da realidade, da fome e da sede. Há uma certa melancolia latente em todas estas tramas, seja no silêncio final e na câmera distanciada de Cabascabo, seja pela récita desesperada de Parolini, que, do topo de um carro em movimento, esbraveja ao espetator: “ah, perdida geração / o último avião passou e nos esqueceram / na plataforma nos deitamos / esperando, esperando, esperando, esperando…”. A profecia de Belchior, contemporânea do lirismo social de Reichenbach, não cessa de se repetir: apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos.

Laila Algaves Nuñez

[Foto em destaque: Orlando Parolini em Sangue Corsário, de Carlos Reichenbach. © Direitos Reservados]

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