Le Rayon Vert: a amizade entre a superstição e a ansiedade

Le Rayon Vert (1986) começa apresentando-nos Delphine numa situação que a deixa transtornada e que serve de mote para o percurso que o filme seguirá: a amiga com quem ia de férias cancela os planos. Tal mudança inesperada deixa Delphine em lágrimas pois não suporta viajar e estar sozinha, porém também não lhe agrada o convívio que férias em grupo exigem, e tampouco lhe resta tempo para arranjar outra companhia que possa ir consigo no lugar da amiga. Esta problemática pode parecer trivial, e a sua reação, de quase desespero, é algo exagerada e dramática. A empatia com esta personagem pode não ser imediata. Delphine pode dar-nos a primeira impressão de ser um pouco infantil na maneira como encara as peripécias da sua vida, contudo se não desistirmos de a acompanhar durante a hora e meia que o filme dura, talvez entendamos melhor os seus motivos, e talvez até reconheçamos algo de nós nessa sua procura incessante por algo que ela própria não sabe muito bem o que é nem que forma tomará. A temática do filme é essa – os dilemas interiores desta personagem enquanto procura companhia e local para as férias de verão e o desencanto geral com o que vai encontrando, ou melhor, a sua falta de sentimento de pertença onde quer que esteja. Este leva-a a saltitar por vários sítios e a contactar com diversas pessoas, sempre em busca desse algo que a preencha e cuja falta sente com pesar.

Le Rayon Vert, de Éric Rohmer © Direitos Reservados

Sendo este um filme de Éric Rohmer, não escapa à característica habitual de encadear momentos e conversas do quotidiano, situações triviais que podem por vezes roçar o aborrecimento, mas que agilmente tecem a narrativa de forma envolvente, fazendo-nos prestar atenção à psicologia das personagens, àquilo em que acreditam, a visão do mundo que têm e, sobretudo, a forma como se relacionam, como falam entre si e criam vínculos, o que procuram um nos outros e o que os deixa inseguros. É difícil não nos relacionarmos com quem vemos no ecrã, mesmo que não nos identifiquemos com as suas lógicas, conseguimos perceber a sua humanidade. As personagens de Rohmer são honestas e realmente parecem verbalizar os seus pensamentos mais íntimos. Le Rayon Vert possui ainda a particularidade de ser um filme improvisado em que para cada cena se filmou apenas um take, e no qual Marie Rivière, atriz principal, teve liberdade para desenvolver os diálogos a partir das linhas gerais indicadas pelo realizador, tal como relatou em entrevista à plataforma de streaming Mubi. O facto de não ter existido um guião a ser seguido permitiu a absorção de aspetos da realidade pela ficção do filme: os diferentes locais que Delphine atravessa têm alguma conexão com a equipa, eram sítios por eles regularmente visitados; as famílias das personagens eram de facto as famílias das atrizes; e um certo sentimento de solidão liga Marie Rivière a Delphine, de acordo com o que revelou na entrevista mencionada. 

De facto, Delphine parece sentir-se sozinha, mesmo que rodeada de pessoas que lhe querem bem e cuidam dela. A sua solidão é sobretudo interior e é alimentada por uma angústia que parece já fazer parte de si, um sentimento de desconsolo em relação a si mesma, uma crença de que não é funcional, como afirma em lágrimas já quase no final do filme. Há algo que parece bloqueá-la a partir de dentro e que a impede de se relacionar mais intimamente com os outros como tanto deseja. Numa outra conversa, e pressionada por uma amiga que questiona a sua inércia, confirma precisamente que tem muito para expressar, mas que simplesmente não o faz. Delphine parece encarnar o sentimento de ansiedade, esse conflito entre uma vida interior que aspira a conexão com urgência e a dificuldade em materializar, com palavras e ações, tal necessidade no mundo exterior. Desde o início do filme que, repetidamente, a ouvimos falar da sua vontade de conhecer alguém para de seguida assistirmos à sua recusa quando alguma circunstância parece permiti-lo. Apesar de Delphine se mostrar insegura, ao mesmo tempo confia profundamente na sua intuição e espera de forma desassossegada por alguém que a faça sentir o que procura, acreditando que quando encontrar tal pessoa, simplesmente saberá. 

Le Rayon Vert, de Éric Rohmer © Direitos Reservados

A sua sensibilidade para atribuir significados e interpretar o seu redor certamente a ajuda nessa tarefa – Le Rayon Vert fala-nos também de superstições e repetição de situações e objetos que não se explicam facilmente de forma racional. Delphine encontra diversas vezes cartas no chão, isoladas dos baralhos, e não sabe o que tal padrão significa, mas suspeita que signifique algo, atribuindo-lhe uma importância que começa a fazer parte da sua experiência pessoal de deambular pelas ruas. São pequenas coincidências que só ela nota, são conexões íntimas entre si e o mundo. Noutra situação, escuta um grupo de amigos que conversam sobre o livro de Júlio Verne do mesmo nome que o filme. É dessa forma que aprende sobre o fenómeno físico que é possível observar em dias luminosos e em locais com a linha de horizonte bem definida: o último raio de sol antes de este se pôr é verde. Assistir a tal fenómeno é raro, pois este é muito breve e necessita de condições atmosféricas precisas. A explicação científica para que tal aconteça é comentada no filme, porém sobrepõe-se, para Delphine, o seu significado místico. De acordo com o romance de Júlio Verne, o raio verde confere a quem o presencia a capacidade de entender com clareza quer os seus sentimentos quer os dos outros. Delphine é cativada por esta descoberta e procura a possibilidade de ver o raio verde, entendendo-o como uma confirmação do seu estado emocional íntimo, e até sentindo a necessidade de o ver para se entender melhor a si mesma.  

Em Le Rayon Vert parece estar sempre a ocorrer um jogo entre o interior e o exterior. Delphine procura constantemente fazer a conexão entre a sua pessoa e o que tem à sua volta, pensando em si como parte integrante do ambiente ao invés de como sujeito isolado e desapegado – como quando afirma que as alfaces são suas amigas. Para Delphine, viver deve sempre ser o ato de estar inteira e presente, não tendo receio de recusar todas as pessoas e situações que não a façam sentir assim. Mesmo que tal atitude prolongue a sua busca por segurança e amor, Delphine só quer o que é genuíno e sincero.  

Vera Barquero

[Foto em destaque: Le Rayon Vert, de Éric Rohmer © Direitos Reservados]  

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