Affonso Uchôa: a diferença é uma poderosa atracção 

Será uma sessão louquíssima, mas, por isso mesmo, estimulante. A diferença é poderosa atração e você terá nessa sessão um exemplar de mundos distintos atraídos por uma gravidade quase circunstancial: meu nome. 

Affonso Uchôa 

O nome de Affonso Uchôa está longe de constituir uma gravidade quase circunstancial no cinema brasileiro contemporâneo. Mais do que exemplares de mundos distintos, sobretudo pela distância de vinte anos que entre eles se entrepõe, Desígnio: caderno de notas e esboços a respeito de um filme chamado Mulher à Tarde, a primeira curta-metragem, de 2009, e Sete Anos em Maio, de 2019, são dois polos do mesmo gesto de mostrar o cinema, que neles não esgota a nossa atracção por Uchôa.

Desígnio: caderno de notas e esboços a respeito de um filme chamado Mulher à Tarde, de Affonso Uchôa © Direitos Reservados

Como o próprio título indica, Desígnio: caderno de notas e esboços a respeito de um filme chamado Mulher à Tarde é um filme sobre a realização de outro filme, Mulher à Tarde, a primeira longa-metragem de Affonso. O realizador descreve-o como um caderno visual que reúne imagens do elenco, dos ensaios e dos lugares do filme, acompanhado por anotações suas lidas em voz over. A forma documental que Desígnio: caderno de notas e esboços a respeito de um filme chamado Mulher à Tarde assume à força de ter Mulher à Tarde como objecto possui uma singularidade que se tornará característica do cinema de Uchôa. O primeiro é um documentário só e apenas na medida em que o segundo é uma ficção. Não é tanto a realidade, ou factos do mundo real, o substracto que dá origem ao filme, como habitualmente acontece no género documental, mas a possibilidade real e concretizada do(s) filme(s) na e através da ficção. Para que se torne real, para que essa possibilidade se revele diante de nós, apenas uma imagem é símbolo de uma finitude – a da tela negra, morta e possível – que habitualmente encerra o filme. Ao invés de entrar a luz pela sala, ouve-se câmara, acção e o filme continua como se estivesse a começar, como se irrompesse na tela como o real irrompe no filme.   

Sete anos em Maio, de Affonso Uchôa © Direitos Reservados

Pelo contrário, Sete Anos em Maio parte do real em direcção à ficção, em direcção ao filme. No mais assumidamente político dos filmes de Uchôa, é posto a descoberto a violência policial de que foi vítima Rafael dos Santos Rocha numa noite que irá ditar o seu futuro. Quem nos poderia contar a sua história senão o próprio Rafael dos Santos? Por um lado, o testemunho apresenta-se sob a forma pretérita do que aconteceu. Por outro lado, a ficção oferece uma instância de reflexão sobre o acontecimento quando o diálogo é introduzido com um inesperado contra-campo, quando a sua história se torna a história do outro. “A ideia do depoimento que vira diálogo é um princípio do filme: partir da forma mais básica do documentário, que é a entrevista, para a forma mais básica da ficção, que é o contra-campo. Isso era, desde o início, algo fundamental.”[1] Um é o ponto de partida do filme, o outro é o ponto de chegada, o que os une a crença de que “o real precisa ser ficcionado para ser pensado.”[2]

A extensão do que nos mostra o realizador e do cinema que por ele nos é mostrado é visível se pensarmos estes dois filmes como duas faces da mesma moeda, ou, melhor dizendo, como duas manifestações de um cruzamento entre o real e a ficção, dimensões indissociáveis do filme, o qual não é senão uma materialização da sua reunião. Sem o real a ficção não seria possível, mas sem a ficção o que é que teríamos para devolver ao real depois de o experienciarmos? 

Assim, é fácil perceber porque a ficção nos fascina tanto. Oferece-nos a oportunidade de exercer sem limites as nossas faculdades, quer para percebermos o mundo, quer para reconstruirmos o passado.[3]

Ao longo das duas décadas que separam Desígnio: caderno de notas e esboços a respeito de um filme chamado Mulher à Tarde de Sete Anos em Maio, Affonso Uchôa não abandona nem o género documental nem o ficcional, consolidando no intervalo entre ambos e a partir deles uma obra que, para lá das diferenças de cada filme, mostra-nos o cinema na sua potencialidade mais transformadora – a potencialidade de pensar e dizer, mas sobretudo de imaginar a realidade. Que outro modo há de afinidade, de aproximação do cinema à vida? 

Folha de sala da sessão dedicada ao Affonso Uchôa na Mostra de Primeiras Curtas, na Livraria Térmita, no Porto.

Cátia Rodrigues

Notas de rodapé

[1] A periferia reimaginada: uma conversa com Affonso Uchôa por Maria Chiaretti e Mateus Araújo paraAniki, Revista Portuguesa de Imagem em Movimento.

[2]  Cf. RANCIÈRE, Jacques – A partilha do sensível. São Paulo: Editora 34, 2005. p. 57.

[3] ECO, Umberto – Seis Passeios nos Bosques da Ficção. Lisboa: Gradiva.

[Foto em destaque: Sete Anos em Maio, de Affonso Uchôa ©direitos reservados]

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