MEN e os terrores do patriarcado  

Depois do sucesso de Ex-Machina (2014), Alex Garland volta a juntar-se à A24, embarcando agora no universo do terror psicológico e sexual, numa chamada de atenção para os terrores do patriarcado. Men é a terceira longa-metragem do realizador e argumentista inglês e centra-se em Harper, interpretada por Jessie Buckley numa performance que relembra a sua Lucy de I’m Thinking of Ending Things, filme de Charlie Kaufman. Aqui, Harper encarna mais uma das poderosas protagonistas femininas de Garland, seguindo a herança de Alicia Vikander e Natalie Portman (em Annihilation, 2018), naquele que é talvez o seu argumento mais feminista até hoje. 

Uma imagem com interior, escuro, arco

Descrição gerada automaticamente
Men, de Alex Garland – © DNA Films

Men, ao contrário do que nos diz o seu título, é um filme sobre ser mulher e, principalmente, sobre ser mulher num mundo que é dos homens e feito para os homens. Depois do suicídio do seu marido, Harper refugia-se num chalé vitoriano, e é a paisagem rural inglesa que acompanha o filme do início ao fim. Perdida em motivos visuais folclóricos, a cinematografia apoia-se nestes para demonstrar a ruralidade que ainda contorna as relações entre homens e mulheres. O Green Man, ou Homem Verde, figura mitológica nórdica, é um dos símbolos que mais vemos ao longo do filme e representa a fertilidade, a natureza e a criação. Este é acompanhado por imagens de relevos de Sheela Na Gig, figura feminina nua com uma vulva exagerada que representa os perigos da luxúria e da carne. Estes dois símbolos representam uma ideia tradicional de que a mulher é uma figura associada a um certo perigo e maldade e que o homem é o guardião da floresta e representa a fertilidade, o que é irónico, sendo que é, na verdade, a mulher que carrega o filho no seu ventre e depois o dá à luz. Esta ironia é muito bem utilizada por Garland que fecha o seu filme com múltiplos partos, homens que dão à luz outros homens. Esta ideia de criação remete, ainda, para Adão e Eva e o mito do fruto proibido, refletido no belo pomar que rodeia o chalé alugado por Harper. Todos estes símbolos tradicionais e folclóricos são símbolos da criação e, por isso, remetem também para uma certa visão arcaica e antiquada associada à origem dos tempos, ainda é prolongada na ideia de que o homem exerce poder sobre a mulher.

Uma imagem com pessoa, exterior

Descrição gerada automaticamente
Men, de Alex Garland – © DNA Films

Na verdade, a hipérbole é um dos truques mais bem utilizados por Garland, que coloca todos os homens “dentro do mesmo saco”, não deixando nenhum de parte pelo qual o espectador possa sentir empatia. Isto pode parecer-nos um exagero, mas ajuda a criar o choque que parece ser necessário para acordar uma sociedade “adormecida”. O conceito “todos os homens são iguais” é seguido à letra no sentido em que temos um mesmo ator a representar todos os papéis masculinos (à exceção do falecido marido da protagonista). Rory Kinnear é, simultaneamente, o dono do chalé, o homem nu que persegue Harper, o polícia que o prende, o padre que culpabiliza Harper pelo suicídio do marido, o jovem miúdo que a ataca e todos os outros homens que habitam este lugar idílico, mas tenebroso. Estes homens são as várias representações da opressão masculina, todavia são, também, representações dos vários traumas femininos, que por sua vez estão representados nos traumas da protagonista, num filme que roda muito à volta de um passado que a assombra. As cenas atuais são, sempre, intercaladas por flashbacks da sua relação abusiva e o filme interage connosco, dando-nos a sensação de que todo aquele é um universo criado no inconsciente da própria personagem, dominado pela culpa e pelo luto. Quase como se tudo não passasse de um sonho (ou pesadelo).

Em Men, há uma tentativa de nos mostrar como a fraqueza e a fragilidade masculina resultam numa crise identitária tão destrutiva que faz estes homens reagirem contra o sexo oposto, numa tentativa de voltar a encontrar a segurança e o domínio das suas vidas. Há uma criação coletiva e sistemática de opressão do masculino sobre o feminino e é preciso denunciá-la. Foi a esta a missão que Alex Garland se propôs, trazendo-nos um filme que relembra o surrealismo de David Lynch, vinculado numa luta contra a misoginia e a masculinidade tóxica. Uma luta já travada por muitos, mas que continua tão pertinente e que não deve ser abandonada tão cedo. Men, de Alex Garland, continua em sala nos cinemas portugueses e é, sem dúvida, um filme a não perder.

Inês Moreira

[Foto em destaque: Men, de Alex Garland – © DNA Films]

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.