MOTELX: Destaques da Competição Nacional de Curtas

A sala 2 do Cinema São Jorge encheu-se para duas sessões de competição para o Prémio SCML MOTELX – Melhor Curta Portuguesa, seguida de uma pequena conversa com os realizadores moderada pelo Shortcutz Lisboa. Marcada por obras muito distintas, ficou notório que o cinema de terror em Portugal tem dificuldade em se libertar de ideias já vistas e alcançar algo de verdadeiramente novo face à pouca aposta das produtoras de maior renome e ao pouco orçamento de várias destas produções. Ainda assim, alguns trabalhos destacam-se.

É o caso de Cemitério Vermelho, um dos filmes mais conseguidos vistos na competição pela fidelidade ao género com que o realizador Francisco Lacerda se lança nos seus projetos. Este western spaghetti passado nos Açores, mais concretamente no Barreiro da Faneca, traz-nos a história de dois fora-de-lei que lutam por “um punhado de trocos”. Através do pastiche e do lado burlesco das personagens, o filme resulta numa boa comédia e em 9 minutos de bom entretenimento para os mais admiradores do género. Percebemos que algo se passou naquele dia e que o cowboy regressa para pedir justificações. As voltas e reviravoltas finais culminam num final empolgante.

Cemitério Vermelho, Francisco Lacerda © Cactus Sessões

Quando a Terra Sangra de João Morgado é tecnicamente o mais espantoso e prometedor dos filmes em competição. A praga que ameaça uma aldeia traz a loucura e o medo ao seio daquela comunidade. Com momentos de intenso mistério e tecnicamente surpreendente, o filme tem sequências de grande qualidade, como no caso dos sonhos surrealistas que invadem a mente deste “Homem”. Descrito como um filme sobre o desespero, Quando a Terra Sangra funciona bem na forma como constrói o terror ao redor das personagens e da aldeia. Ainda assim, o argumento acaba por não ser suficientemente poderoso face à qualidade da imagem e ao desempenho dos atores, ficando a ideia de que teria potencial para muito mais.
O Caso Coutinho de Luís Alves toma o ecrã. Vítor Norte, que interpreta a personagem principal, assume perfeitamente a essência de um idoso solitário e angustiado que é perseguido por uma força misteriosa em sua casa. O uso do preto e branco (à semelhança de Misericórdia, uma outra curta em competição) dá um ar ainda mais misterioso e aflitivo ao espaço em que o personagem principal se encontra. Também o som do filme é muito bem trabalhado, com o barulho de máquinas, da campainha e de um constante bater à porta. Tudo parece acontecer ao mesmo tempo, desnorteando ainda mais tanto a personagem principal como os que o observam.

VÓRTICE, Guilherme Branquinho © Take It Easy 2022

Por último, destaca-se o vencedor da competição, Vórtice de Guilherme Branquinho. Com Cristóvão Campos na personagem principal, partilhamos a frustração de uma pessoa que, saindo tarde do trabalho, não consegue encontrar um lugar para estacionar o carro. No entanto, rapidamente a sua frustração transforma-se em paranóia quando se apercebe que esta não é uma simples noite e tem alguém a persegui-lo. O argumento lembra o episódio “The Witness” da série Love, Death, Robots, onde também os personagens ficam presos neste vórtice estranho, numa realidade que parece tão semelhante à que pertenciam, mas que agora foi ligeiramente alterada. Também Guilherme Branquinho consegue transformar uma coisa tão mundana em algo muito maior e sinistro. O argumento está bem escrito, o ambiente segura uma tensão que é quase palpável na sala de cinema e Cristóvão Campos parece ter sido criado para esta personagem. Não é de estranhar que Guilherme Branquinho tenha levado o tão merecido prémio da noite, distinguindo-se como melhor curta portuguesa em competição.

Apesar de altos e baixos, o MOTELX continua a crescer com o sangue novo que lhe tem vindo a ser adicionado e deixa uma esperança positiva no futuro do cinema português.

[Foto em destaque: Quando a Terra Sangra, João Morgado © Lusófona Filmes]

Ricardo Fangueiro e Olena Pikho

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