MOTELX – Final Cut: o remake quase falhado que glorifica o cinema

Final Cut (2022), de Michel Hazanavicius (conhecido pelo premiado The Artist), é o remake do sucesso de culto japonês One Cut Of The Dead (2017), co-escrito e realizado por Shin’ichirô Ueda. Final Cut, ou como no título original, Coupez!, foi o filme de abertura da última edição do Festival de Cannes, que já em 2019 decidiu abrir com The Dead Don’t Die, uma comédia de terror sobre zombies de Jim Jarmusch. E é da tela de Cannes que salta para a tela do Cinema São Jorge, com uma sessão quase esgotada que contou com uma plateia muito bem humorada.

Final Cut, de Michel Hazanavicius – © Getaway Films, La Classe Américaine, SK Global e Blue Light

Rémi, interpretado por Romain Duris, é um realizador falhado que decide aceitar uma proposta para fazer um filme de zombies em direto, num único plano sequência. A proposta é feita pela atriz japonesa Yoshiko Takehara, único elemento do elenco que se repete do original para este. O filme começa, precisamente, dentro deste outro “pequeno filme” que lhe ocupa os primeiros 30 minutos, abrindo com o que parece ser uma cena final, e é, precisamente, aí que ouvimos o primeiro “Corta!” (em referência ao título) e percebemos estar perante um set de filmagens. Mais tarde no filme são nos dadas as três camadas que o compõem, um filme encomendado no qual a narrativa é sobre uma equipa de filmagem que filma um outro filme, portanto, filme dentro do filme dentro do filme. A estrutura é um dos pontos fortes de Final Cut, contudo não o podemos premiar pela originalidade já que esta tinha sido igualmente adotada na versão de Shin’ichirô Ueda, que Hazanavicius copia quase plano por plano.

O filme funciona para quem não viu o original, já os fãs do clássico japonês tecem duras críticas à versão francesa, caracterizando-a como vazia e pouco engraçada. É muito difícil quando temos em mãos refazer um êxito tão acarinhado pelo público e que se compromete mais verdadeiramente com a sua missão. One Cut Of The Dead é o filme que se esperava ser, um filme independente low-budget, com um distinto contorno caseiro e de improviso. Já Final Cut é feito visivelmente com um orçamento superior a tentar parecer low-budget, tornando-se pouco credível e forçado. Até mesmo o espaço em que se filma contrasta radicalmente com o deslavado edifício abandonado de filtração de água utilizado como set do original, que contribui mais uma vez para o aspecto homemade do mesmo. 

Final Cut, de Michel Hazanavicius – © Getaway Films, La Classe Américaine, SK Global e Blue Light

Contudo, não podemos deixar de notar a quantidade de gargalhadas que a versão francesa recebeu no Cinema São Jorge. A verdade é que o seu elenco é competente, composto por caras conhecidas, como Bérénice Bejo, e outras menos conhecidas, como é o caso de Jean-Pascal Zadi, que interpreta o compositor musical deste plano sequência sobre zombies. Zadi é talvez a personagem mais marcante deste Final Cut, primeiro, por ser das poucas adições face ao original, e segundo, por ser uma adição extremamente divertida, é ele que rouba a maioria destas gargalhadas dos espectadores. Há ainda uma inovação no que toca à cinematografia do filme, sendo este muito mais vivo e colorido, relembrando os primeiros filmes de Quentin Tarantino, que é ainda “citado” numa peça de roupa de uma das personagens, numa homenagem direta ao seu trabalho. Final Cut tem a intensidade de Death Proof e heroínas que fazem lembrar Beatrix Kiddo, todavia quando uma das suas personagens nos diz “It’s a japanese script, they know more than we do about zombies.” percebemos que o filme é consciente das suas próprias fraquezas.

Há claramente uma tentativa forçada por parte do filme de se encaixar na categoria de filmes de Série B e do Trash Cinema, como aquele que fazia o cineasta Ed Wood, e no qual One Cut Of The Dead encaixava perfeitamente. No entanto, há também uma vontade de tornar o filme mainstream, coisa que parece fazer melhor. A nota, apesar de tudo, não é negativa, tanto o original como a versão francesa são filmes que falam sobre fazer filmes e sobre o companheirismo que se sente neste tipo de trabalho. A cena final da “grua humana”, em ambos, é exemplo do sangue, suor e lágrimas que fazer cinema acarreta, porque também o próprio cinema parece ser uma “grua humana”

Inês Moreira

[Foto em destaque: Final Cut, de Michel Hazanavicius – © Getaway Films, La Classe Américaine, SK Global e Blue Light]

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