O Grande Herbário da Luz de Leandro Listorti

“Tu tiras duas imagens, e cada uma delas é neutra; mas de repente, ao lado    uma da outra, elas vibram à medida que um novo tipo de vida entra nelas. E não é realmente a vida da história ou dos personagens; é a vida do filme.”

Robert Bresson[1]

Cinema e plantas encontram na luz a sua condição necessária de existência. Sendo necessária, não é única. Inscrita no tempo, o conteúdo positivo da luz advém de um acto de luta e de resistência perante as ameaças de desaparecimento até à extinção. No fundo, requer a presença animada e/ou inanimada de um gesto que sintetize e dê sentido ao acontecimento da luz. A sobrevivência da arte cinematográfica e das inúmeras espécies de plantas joga-se aqui. Com este propósito, dois organismos, o da película e o das plantas, radicalmente dissemelhantes, são justapostos e daí nasce um terceiro organismo – Herbaria. A segunda longa-metragem do realizador argentino Leandro Listorti, que teve a sua estreia mundial na secção Burning Ligths da última edição do Festival de Cinema Visions du Réel, venceu o Prémio Especial do Júri pela Société des Hôteliers de la Côte.

Porque designamos a película de organismo, uma vez que, paradoxalmente, é na qualidade de organismo que a planta se distingue do cinema? Porque ela para nós significa o que as plantas significam para Narcisa Hirsh[2], para quem “as flores são o que anunciam a presença do Homem”. Neste sentido, o filme torna-se o próprio gesto de preservação, o acto de resistência que coloca a unidade do diverso em movimento. 

A relação entre os dois organismos que dá corpo ao filme concretiza-se na justaposição entre imagens do cinema e imagens de plantas, a fazer lembrar a montagem dialéctica eisensteiniana. Planos dão lugar a organismos e o cinema abre-se para a vida e para a biodiversidade das plantas, “como um único organismo interligado”, diz-nos o realizador. Nova Iorque, Berlim e Buenos Aires, dão lugar a uma só geografia fílmica. Assim, Herbaria materializa a unidade do diverso[3].

Herbaria, de Leandro Listorti ©Visions du Réel

Esse gesto em movimento, que persiste em cada plano do filme, é o derradeiro elemento de aproximação entre o cinema e as plantas. A medida dessa aproximação, desse gesto? O tempo. Mas um tempo que não conhece a linearidade da sucessão e da sequência narrativa. Antes, um tempo tutelado pelo novelo de imagens, de movimentos e de ligações que se mostra numa relação tensional de dependência com o meio, ora dissonante, ora convergente, quase sempre incompreensível. Um tempo de pura exterioridade, como a das plantas, que, aquilo que são, são-no para a diversidade dos outros, sem abdicar de um si de que não têm consciência enquanto fronteira, como se pode definir a autenticidade de qualquer gesto em movimento. Um tempo, enfim, a que Herbaria dá vida. Mas como Herbaria traduz tudo isto? Respeitando o sentido artesanal que regia o modo de fazer cinema de Bresson, ao qual o filme de Leandro Listorti apela, quer no objeto de representação – a preservação da película –, quer no modo como representa – em 16mm, Super 8 e 35mm. A feitura do filme, ela própria plena desse sentido, não é senão um prolongamento do trabalho artesanal envolvido nesse gesto primeiro. Fragmentos de pessoas, de plantas, de movimentos, de luzes e de sombras, atraem-se de tal modo que herbários se confundem com arquivos cinematográficos, realizadores com botânicos e forma com conteúdo. 

Inconfundível é a relação que se cria e se nos mostra em Herbaria, a qual não tínhamos visto anteriormente. A sua singularidade não se prende com o evento inédito que ela constitui não só para a história dos dois organismos e para o olhar do espectador e do botânico, mas pelo cruzamento de duas taxinomias, as quais tão naturalmente se integram uma na outra. Estranho é dela não nos termos apercebido mais cedo. Diante dela, um verdadeiro vislumbre da beleza e delicadeza do filme inicia um novo movimento interior, o qual já não pertence ao filme. E de novo olhamos o mundo para nele ver à luz do filme o anúncio da presença do Homem.  

Cátia Rodrigues

[1] Bresson, R. (1983a). Entrevistado por B. Cardullo. The Poetry of Paucity, the Art of Elision: Robert Bresson in Conversation. In The films of Robert Bresson: A Casebook. B. Cardullo (Ed.). New York: Anthem Press

[2] Cineasta argentina de origem alemã

[3] Jacques Rancière, Imagens do mundo

[Foto em destaque: Herbaria, de Leandro Listorti ©Visions du Réel]

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