O Teu Nome É Alcindo: quem são os corpos políticos?

Às voltas do 25 de abril, e num momento em que a higienização de figuras e discursos fascistas e fascizantes parece normalizar-se por todo o mundo, dois documentários – muito diferentes na forma e muito semelhantes no conteúdo – expõem a ferida aberta que Portugal há muito tenta estancar. Depois de circularem por festivais de cinema nacionais e internacionais, os premiados O Teu Nome É, de Paulo Patrício, e Alcindo, de Miguel Dores, ambos realizados no ano passado, continuam a encher as salas de cinema: no Festival Política, que ruma a Braga entre os dias 5 e 7 de maio após paragem de quatro dias no Cinema São Jorge, em Lisboa, esgotaram-se os bilhetes para as sessões intituladas Corpos Políticos. Do público só se ouviam duas coisas: o riso trágico diante do absurdo e o silêncio retumbante diante da revolta.

É provável que este silêncio derive, na verdade, da incapacidade de articular qualquer sentido face às histórias que se escancaram no grande ecrã. Para qualquer espectador sensível, os assassinatos de Gisberta Salce Jr. e Alcindo Monteiro, reconstituídos, respectivamente, em O Teu Nome É e Alcindo, representam atos de uma barbaridade inumana – e, portanto, ilógica. A linguagem tropeça e a voz se embarga: não é possível que tamanha crueldade exista entre nós. Mas esse silêncio também é signo de uma distância intransponível entre os que compõem este suposto nós. Calamo-nos porque a violência ainda nos surpreende como se não fosse insistente e cotidiana – com a devida e cautelosa nota de que, entre a surpresa e a trivialidade, há lugar para a atenção e o cuidado ativo, que não finge estranheza e não desvia os olhos. 

O Teu Nome É, de Paulo Patrício © Direitos Reservados

Calamo-nos porque esquecemo-nos de que não somos apenas espectadores: corpos políticos também são os brancos, não apenas os negros e os queer. Calamo-nos sem percebermos que o silêncio é a omissão dos que assistem, choram e batem palmas ao final, e que na fenda aberta por este mesmo silêncio, ainda que saturado pela revolta, produzir-se-á, inevitavelmente, barulho. Há sempre uma História a ocupar o lugar das histórias não contadas. Para cada crime de ódio, um Portugal harmónico, multirracial. Para cada invasão colonial, um Portugal dócil e hospitaleiro. Aquilo que O Teu Nome É e Alcindo logram é o resgate das narrativas certas, a partir dos relatos de amigos e familiares que, confrontados com o trauma das tragédias que os cercam, não se deixam, porém, ceder à mudez. 
Alcindo, de Miguel Dores © Direitos Reservados

Um corpo negro, outro transsexual; um corpo caboverdiano, outro brasileiro; um em Lisboa, outro no Porto; um vítima de corpos racistas, outro vítima de corpos homofóbicos; dois corpos espancados até a morte. Mas corpos somos vários, e Alcindo foi um só. Gisberta foi uma só. Diana foi uma só. Kuku foi um só. Bruno Candé foi um só. Giovani Rodrigues foi um só. Antes de tornarem-se mártires, personagens de um momento de vergonha nacional ou números de uma estatística, eram corpos com nomes e apelidos. E o nome é, ao mesmo tempo, direito e dever — direito de memória aos injustiçados, dever de exposição dos criminosos. Afinal, é preciso também não esquecer de Mário Machado. Nuno Silva. Nuno Monteiro. Hugo Silva. Ricardo Abreu. José Paiva. Tiago Palma. Jaime Hélder. Nélson Silva. João Martins. Alexandre Cordeiro. Nuno Cerejeira. Jorge Martins. Nélson Pereira…

Laila Algaves Nuñez

[Foto em destaque: Alcindo, de Miguel Dores © Direitos Reservados]

Texto escrito em português do Brasil.

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