A volta ao mundo com o IndieLisboa 2022

Entre os dias 28 de abril e 8 de maio, o IndieLisboa regressa às salas do circuito de cinema independente da capital. A celebrar este ano a sua 19.ª edição, o Festival Internacional de Lisboa terá a sua programação dividida entre o Cinema São Jorge, a Culturgest, a Cinemateca Portuguesa, o Cinema Ideal e a Biblioteca Palácio Galveias.

Obras restauradas onde o mar é a personagem principal dão arranque à edição de 2022. Albufeira, filme institucional de António de Macedo comissionado por esta cidade algarvia para promover o turismo na região e Zéfiro, de José Álvaro de Morais, um documentário que “caminha por Lisboa, mas que quer realmente galgar o Rio Tejo em pleno modo ficcional, de forma a explorar a margem sul, de onde parte à aventura Alentejo fora até ao Algarve”, são dois dos filmes a explorar no dia 28 de abril. A sessão de abertura decorre no âmbito do projeto FILMar, operacionalizado pela Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema com o apoio do EEAGrants, que pretende restaurar e digitalizar 10 mil minutos de cinema português relacionado com o mar.

Albufeira, de António Macedo ©IndieLisboa

Competição Cinema Nacional mais extensa de sempre

Este ano a Competição Cinema Nacional, uma das principais secções do IndieLisboa conta com nove longas-metragens, surgindo como a mais extensa de sempre, abordando “obras de autores de gerações diferentes, com abordagens distintas entre si, numa prova de vitalidade que se vive actualmente no cinema português“.

Entre as várias longas, destacamos Super Natural, de Jorge Jácome, filme que recebeu o prémio FIPRESCI na 72.ª Berlinale, e que Diogo Albarran descreveu como pegando “na fórmula do filme que o precede e continua a manipulação, a invenção e a reinvenção” do aparato cinematográfico; e O Trio em Mi Bemol, de Rita Azevedo Gomes, adaptação da única peça de teatro de Éric Rohmer, e que contém em si as multitudes das referências literárias da realizadora. De destacar, ainda, Atrás Dessas Paredes, de Manuel Mozos, o único filme em estreia mundial cuja premissa parece ser construída à volta de paredes que guardavam em cativeiros narrativas marginalizadas.

O Trio em Mi Bemol, de Rita Azevedo Gomes © Basilisco Filmes

O cinema português está também presente em competição na secção de curtas-metragens e na secção Novíssimos, que pretende destacar obras de um conjunto de realizadores que estão a dar os seus primeiros passos no mundo do cinema. Por outro lado, a secção Silvestre traz aos ecrãs de Lisboa realizadores já consagrados que “rejeitam fórmulas consagradas, que despertem novas linguagens e cuja rebeldia espelha o espírito do festival“. Desta secção, Miguel Valverde destacou – numa conversa organizada pelo Gabinete de Comunicação da NOVA FCSH e conduzida pelo Professor Pedro Florêncio – Cow, de Andrea Arnold, um documentário que foge à lógica antropocentrista e desloca o foco para o animal e Incroyable Mais Vrai, do francês Quentin Dupieux, uma comédia inesperada que, enfatiza Valverde, é um clamor à experiência colectiva em sala.

Na Competição Internacional surgem títulos das mais variadas nações e géneros, desde Freda, o drama familiar de Géssica Généus que resulta de uma co-produção entre a França, o Haiti e o Benim, a Mato Seco em Chamas, de Adirley Queirós e Joana Pimenta,um filme de classe, daqueles de antigamente, marxista”, no qual também permeia o movimento e a luta feminista.

 Mato Seco em Chamas, Joana Darc Furtado© Cinco da Norte, Terratreme Filmes

IndieMusic, Boca do Inferno e Director’s Cut: as secções fora de competição

Ao lado das consagradas Competição Nacional e Internacional estão as secções fora de competição. São elas o IndieMusic, que liga as duas artes inseparáveis, a Boca do Inferno, secção sem tabus que procura explorar os instintos mais básicos do ser humano e o Director’s Cut, “filmes novos que mergulham na memória do cinema como sua principal inspiração.

La diva aux pieds nus recebe a bonita homenagem em forma de filme em Cesária Évora, documentário de Ana Sofia Fonseca que mostra imagens nunca antes vistas da lendária cantora cabo-verdiana. De Cabo-Verde partimos para uma Nova Iorque permeada pelo punk rock em Patti Smith, Electric Poet e Songs for Drella, filme-concerto onde Lou Reed e John Cale levam para palco o álbum que escreveram em conjunto em homenagem a Andy Warhol (ou Drella – metade Drácula, outra Cinderella – como era carinhosamente apelidado).

Cesária Évora ©IndieLisboa

Na Boca do Inferno, ao sinal da meia-noite entra-se no ante-inferno, em filmes que rasgam fronteiras sem qualquer tabu, como se pode ver pelo terror gástrico de Flux Gourmet e pelo limbo onírico de Strawberry Mansion. Já o Director’s Cut procura uma incursão pela memória com a exibição de The History of the Civil War, de Dziga Vertov, e várias outras longas e curtas-metragens que evocam, como dizia Paul Ricouer, “o dever de não esquecer”.

Retrospectiva Doris Wishman e Programa 5L

Figura central do cinema americano, Doris Wishman foi uma das primeiras mulheres a vingar no mundo marcadamente masculino da produção sexploitation americana no início dos anos 1960. 25 longas-metragens e a promessa de “continuar a fazer filmes no inferno“, Doris Wishman é homenageada na retrospectiva O Inferno Pode Esperar pela “imaginação sem limites dos argumentos, a inesperada ousadia formal e o conteúdo fortemente subversivo” da sua obra.

Por fim, o IndieLisboa leva a cabo este ano uma parceria com o Festival Internacional da Literatura e Língua Portuguesa Lisboa 5L com o ciclo Imagens da Escrita. Estão aqui programados cinco filmes que têm como objecto central (ou mesmo personagem) a carta e a sua escrita. Cartas de Guerra, de Ivo M. Ferreira e Correspondências, de Rita Azevedo Gomes são os filmes nacionais que integram este ciclo ao lado dos clássicos News From Home, de Chantal Akerman, Love Letter, de Kinuyo Tanaka e Ifidanzati, de Ermanno Olmi.

O programa completo desta edição do IndieLisboa aqui.

Kenia Pollheim Nunes

[Foto em destaque: Freda, de Géssica Généus ©IndieLisboa]

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