Orgia e o que resta de nós

Neste mês de abril dedicado ao centenário do nascimento de Pier Paolo Pasolini, escritor, realizador e intelectual italiano, Lisboa incendeia-se de iniciativas para celebrar o trabalho desta incontornável, senão controversa, figura do século XX. Dentro das várias, surge o projeto de Nuno M. Cardoso, que se aventura na encenação de Orgia, peça de 1968 que não seria tão pouco menos oportuna em nome de qualquer outra ocasião.

“Sopravviviamo: ed è la confusione

di una vita rinata fuori dalla ragione.”

“Sobrevivemos: e é a confusão 

de uma vida renascida fora da razão.” 

– Pier Paolo Pasonili1

Como qualquer um, partimos do seu título, que, após a inicial surpresa, acaba por alcançar uma transcendentalidade muito além daquilo que a mera sugestão indica. Este não é, portanto, o teatro que esperamos, mas o que descobrimos e, talvez mais importante, aquele no qual nos descobrimos, por desde logo implicar o espectador, e qualquer um, na sua orgia de ideias. Mais do que um palco de ações, estamos perante um palco de questões. As mesmas que foram, antes e depois, permear a ouvre do seu autor e que, pela sua prepotência, também nos marcam a nós.

Se tentarmos delinear uma linha de acontecimentos clara e concisa para aquilo que a obra encena, rapidamente nos apercebemos que tal não é um simples esforço e que será, aliás, até diminutivo daquilo que a peça “realmente” é. Nada menos do que o delírio de um casal, brilhantemente interpretado por Albano Jerónimo e Beatriz Batarda, como uma espécie de requiem para ambos e, de forma mais significativa, para a sociedade. Nenhum dos dois tem nome, demarcando-se enquanto figuras anónimas, símbolos presos ao estatuto que procuram desafiar, contendo em si o problema da identidade pessoal, puxada no sentido de todas as forças e obsessões, sejam estas naturais, sociais, sexuais ou políticas. Onde fica o diferente?

Orgia, Albano Jerónimo, Beatriz Batarda © Raquel Balsa.

Neste sentido, não é de espantar o palco crepitante com o qual nos deparamos, que se afasta da cenografia tradicional de modo a se tornar numa verdadeira máquina interpretativa por si só. Na argila e nas cinzas da instalação de Ivana Sehic, os atores juntam-se numa coreografia ritualística de palavras e corpos, movendo-se a uma velocidade simultaneamente morosa e revigorante. Da interação com a matéria, na pele ficam as marcas vibrantes dos impulsos que nos movem. São deixadas pelo outro e pelo próprio, num contraste visual, paralelo ao discurso formal eloquentemente proferido. 

Orgia é feita de confrontos, das relações entre o Eros e do Thánatos, o individual e o coletivo, a liberdade e a (des)ordem. Aqui reside a apatia urgente, um último suspiro em nome da procura de algo que dê sentido a tudo, de soluções que nos salvem do magma circundante. Acompanhamos as personagens neste percurso sombrio, no sofrimento poético e trágico dos seus sacrifícios, no meio dos quais desaparecem pelo fumo atmosférico. A este ponto, não há caminho a seguir, mas uma luz quente a vir de algures. Por fim, deixam-nos sozinhos neste paraíso perdido, a questionar o que resta de nós.

[Foto em destaque: Orgia, Albano Jerónimo, Beatriz Batarda © Raquel Balsa]

Notas de rodapé

1Pasolini, Pier Paolo, et al. Roman Poems. City Lights Books, 2005

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