UNDERGROUND: Era uma vez um cineasta

Toda a filmografia de Emir Kusturica – ou pelo menos a maior parte – partilha entre si a peculiaridade de ser uma experiência totalmente exaustiva para quem assiste. As obras são de um fulgor crescente que aparenta uma relação de inversa proporcionalidade à energia do espectador. Talvez seja o tempo de duração dos filmes, ou o humor trágico…talvez a música, ou a dança; os casamentos e os funerais; os sonhos e os pesadelos; o pato, o gato, os cães, o peru, os gansos…enfim. O que é facto é que toda essa experiência “para além do real” – do exagero, da transcendência – é a marca autoral a que nos habituou o cineasta sérvio. E essa marca autoral tem, e teve, as suas consequências. 

Um cineasta que trabalha sempre no limite – em todos os sentidos possíveis – corre o risco de não se conseguir superar. A tal marca autoral transformou-se numa fórmula. Essa fórmula resultou na apoteose de Underground – vencedor da Palma de Ouro em Cannes, a segunda para Kusturica, em 1995 – mas também numa sentença de morte. E se é possível entender este filme enquanto tal, então, poder-se-ia considerar Gato preto, Gato Branco, o mais belo e extraordinário funeral e A Vida é um Milagre uma certidão de óbito. 

Evidentemente que toda a polémica gerada pela aclamação de Underground tem de ser tida em conta nesta reflexão. Este filme é sobre o fim da Jugoslávia, os terrores da guerra dos Balcãs. Kusturica foi acusado por intelectuais franceses de fazer “propaganda sérvia”, traindo a sua nação (Bósnia) e origens étnicas, de escolher a versão sérvia da história, e de ser “um génio racista, à maneira de Louis-Ferdinand Céline”. Ao rescaldo destas acusações, e também à ressaca da Palma de Ouro, o cineasta respondeu: “Talvez não valha mais a pena”. 

Numa curta-metragem presente em 7 dias em Havana, Kusturica – aqui como ator a interpretar-se a si próprio – falta a uma entrega de prémios em sua homenagem para participar numa jam session com um taxista. Parece-me que este personagem diz mais do que aparenta. É sobre a escolha de um cineasta de envergar por caminhos mais simples, esses caminhos seriam a música. E é numa tentativa de gravar um documentário sobre música cigana que nasce Gato Preto, Gato Branco, esse filme tão belo quanto fúnebre.

Uma imagem com exterior, céu

Descrição gerada automaticamente
Gato preto gato Branco, de Emir Kusturica © LEFFEST

Mas falemos de Underground. Como em quase todos os filmes de Kusturica, não existe mal nem bem. Todos são vilões e todos são heróis, e, no final, é difícil entender o propósito destas alegorias épicas. Mas, neste caso, pode dizer-se que existe uma tentativa de contar a história de um país – como sugere o subtítulo, Era uma vez um país – país esse que já não existe.

O filme começa na cidade de Belgrado, em 1941 e estende-se por 50 anos. Conta a história de “amizade” entre os dois personagens principais: Marko e Blacky. O primeiro esconde o segundo, juntamente com muitos outros resistentes, num abrigo subterrâneo como forma de escapar à Gestapo durante um bombardeamento. Com mão de obra e tempo livre, estes iniciam um negócio de fabrico de armas no interior do esconderijo. Marko fica encarregue de ser um elo de ligação do grupo com o resto do mundo, mas, começando a colaborar com o regime de Tito, ganha uma fortuna com o tráfico de armas, trai o grupo, e fá-los acreditar, por 20 anos, que a guerra nunca acabou. Em 1961, Blacky foge do abrigo, e no meio de todas estas voltas e reviravoltas impossíveis de resumir em breves palavras, acaba, passados 30 anos, por ordenar involuntariamente a execução de um abastado Marko, que tinha sido capturado pelos sérvios na Bósnia. No final, todos os personagens se reúnem numa espécie de purgatório, transformado num baile dionisíaco, ao som da mesma música com que o filme começa.

Uma imagem com texto, restaurante

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Underground, de Emir Kusturica © Medeia Filmes

Nesta farsa negra, a violência e a política são camufladas, e até estetizadas; escondidas por enormes planos épicos, pela música, e pelo caos; mas nunca deixando de existir. Mais do que estar presentes, são a génese de toda a trama. Portanto, esse branqueamento da violência – juntamente com o caráter amoral de todos os personagens – impede a condenação da mesma por parte do espectador. Esse é um dos principais motivos da polémica. Este filme situa-se dentro da História.

Gato Preto, Gato Branco é uma fuga à História. Kusturica diz que veio repor os estragos causados por Underground. A fórmula é a mesma, a violência, a amoralidade, continuam presentes, mas o facto de não estar preso à realidade faz deste um filme feliz. Uma bonita despedida, sendo que as obras posteriores parecem não ultrapassar uma certa autorreferencialidade do seu best of. São quase caricaturas da sua fórmula, até 2016, com o seu Na Via Láctea. Será este um tímido regresso, a – como diz Vasco Câmara – um cinema que não volta mais?

Underground, pode ser revisto no dia 29 deste mês, no contexto do ciclo Palmas de Ouro de Cannes, no Cinema Nimas em Lisboa.

Tiago Leonardo

[Foto em destaque: Underground, de Emir Kusturica © Medeia Filmes]

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