COW: o mundo através dos olhos de uma vaca

Com estreia internacional no Festival de Cannes de 2021 e passagem pela secção Silvestre do IndieLisboa no passado dia 3, Cow acompanha o dia a dia de Luma, uma vaca leiteira numa quinta de produção industrial de leite em Kent, na Grã-Bretanha. Esta é a primeira incursão de Andrea Arnold no documentário, mas a cineasta não é nenhuma desconhecida, tendo vencido o Prémio do Júri em Cannes por três vezes com Red Road (2006), Fish Tank (2009) e American Honey (2016). Este é, contudo, o seu projeto mais pessoal.

O filme abre com um parto, numa cena imersiva em que se destaca desde logo a proximidade da câmara e o som, permitindo observar em detalhe visceral Luma a dar à luz. «É uma menina», ouvimos. Com estas três palavras, fica traçada uma profecia cruel, um futuro igual ao da mãe – ser engravidada, produzir leite, ser engravidada de novo, num ciclo ininterrupto.

Cow, de Andrea Arnold © BBC Films

A rotina de Luma é repetitiva: dá à luz, é ordenhada, come, dorme, muge, é inspecionada regularmente para ver se o útero está a sarar bem, tudo isto enquanto a câmara da diretora de fotografia, Magda Kowalczyk, a segue de perto ao longo de cerca de quatro anos de filmagens. Não vale a pena esperar pelos plot twists – esta é uma história real e sabemos como termina. À medida que a rotina se repete, não sem alguns problemas de ritmo na terceira parte do filme, Luma demonstra cada vez mais dificuldades físicas. Quanto tempo até já não aguentar mais? é a pergunta que se vai impondo conforme o filme avança.

Ao longo dos 90 minutos, mantém-se o estilo à la cinéma vérité: não há narração voice over, não há texto, não há vídeo, o diálogo é quase inexistente, e a utilização exclusiva de câmera de mão num ângulo quase sempre ao nível do olhar da vaca reforça intencionalmente a experiência de empatia. É a perspetiva de Luma que seguimos sempre. Mesmo nas ocasionais aparições dos trabalhadores da quinta, o filme nunca adota a sua perspetiva, com a câmara a manter-se quase sempre abaixo do nível das suas caras. Ao mesmo tempo, a banda sonora diegética de música pop, proveniente da rádio que os trabalhadores da quinta ouvem enquanto desempenham as suas tarefas diárias, parece não condizer com aquilo a que assistimos, dando azo a cenas caricatas que podem retirar alguma seriedade ao filme, como o ritual de acasalamento de Luma ao som de Kali Uchis ou a ordenha mecânica do dia enquanto se ouve Billie Eilish.

O resultado da abordagem que privilegia a neutralidade e a objetividade, fazendo da câmara um mero observador, é um filme que não se pretende didático ou acusatório, nem tão-pouco tenta passar uma mensagem política associada ao veganismo. Em vez disso, trata-se de uma demonstração sóbria da vida de Luma, num exercício de criação de empatia que também a ausência de narração propicia, obrigando o espectador a virar-se para as suas próprias reflexões e a retirar as suas conclusões. Sem romantismos ou juízos de valor, o resultado é um esforço sincero por fazer com que as pessoas não apenas olhem, mas vejam verdadeiramente estas vacas e as suas vidas. «Sinto que no mundo não nos vemos uns aos outros. Não vemos as outras coisas vivas», afirma Arnold em entrevista ao New York Times. «Só queria genuinamente perceber se, seguindo-a com regularidade, seria possível criar uma ligação verdadeira, vê-la». O objetivo parece ficar cumprido, pelo menos para a realizadora: Arnold acredita que Luma, que tinha perfeita noção das câmaras à sua volta, parecia sentir-se «vista».

Mas talvez seja possível ir para lá do simples dia a dia de uma vaca. Observando o quotidiano de Luma, somos inevitavelmente confrontados com questões complexas, muitas das quais tendemos a evitar. Por várias vezes, parece que a vemos fitar diretamente a câmara. E ainda que talvez não seja oportuno projetar nesse olhar as nossas próprias emoções e pensamentos antropomórficos, é difícil evitar questionar se o que avistamos nele poderá ser desespero, sofrimento, ou até mesmo um olhar que nos julga.

Cow, de Andrea Arnold © BBC Films

Arnold reconhece a derradeira anonimidade de Luma – esta é a sua história, mas poderia ser de outra vaca qualquer. O filme não esconde a dura realidade das vacas leiteiras, a verdade desconfortável de uma vida abreviada e em que predomina o sofrimento. Estes animais vivem com pouco espaço e em condições muitas vezes deploráveis; são obrigados a engravidar sucessivamente, por vezes através de violenta inseminação artificial, de forma a produzir leite de modo contínuo; as suas crias são-lhes retiradas logo após o nascimento; e, quando os níveis de produção começam a decrescer, são enviadas para abate, geralmente com 4 a 6 anos de vida, apesar de a sua longevidade natural ser de cerca de 20 anos. São objetos maquínicos ao serviço dos desejos humanos.

Num filme com este objeto, são, portanto, escassas as cenas de pendor positivo ou esperançoso. Num destes raros momentos, após as vacas terem sido temporariamente libertadas para pastar ao ar livre, Luma parece observar um pôr do sol impressionante. Mais uma vez, se está realmente a apreciar a beleza do céu ao final do dia não passará, provavelmente, de uma projeção puramente humana. Mas o momento é real. Nunca poderemos conhecer a verdadeira personalidade, emoções e reações de Luma. Mas talvez o reconhecimento de que estas existem, sejam elas quais forem, seja um importante primeiro passo.

Marta Batista

[Foto em destaque: Cow, de Andrea Arnold © BBC Films]

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