Lama, água e tarafes: a geografia da utopia em Mangrove School

“Dez granadas foram distribuídas por cinco guerrilheiros. Quantas granadas cada um recebe?”: na aldeia onde nasce a mãe do realizador Sana Na N’Hada, um dos grandes fundadores do cinema guineense, Filipa César e Sónia Vaz Borges recriam o quotidiano de uma Mangrove School (2022), escola de guerrilha em Guiné Bissau. Estreado mundialmente na mais recente edição do Cinéma du Réel, o filme pensa as redes de resistência engendradas — e ainda possíveis — no país a partir dos centros educacionais livres, entidades que, sendo alvos indispensáveis dos bombardeamentos coloniais, tornaram-se móveis, nómadas, tão voláteis e maleáveis como o rio, e a mão, que encerram as primeiras imagens da curta-metragem. Em constante fuga, muitas destas escolas chegaram às profundezas das selvas e, lá, encontraram os mangais. No espaço impenetrável da mata, a natureza alia-se à militância, “parceira das nuvens na luta contra o sistema de vigilância de Estado”, como descreve uma das personagens. 

Nesta geografia de ramificações, lodo e água, o ofício do cineasta é como o do arquiteto – um arquiteto restaurador. Mangrove School é símbolo e recorte físico da transmissão radical, um filme que incorpora o processo de rememoração oral na sua própria mise-en-scéne e que se torna, ele mesmo, um conto para atravessar histórias e gerações. Aqui, documento e ficção partilham os mesmos contornos, e a mesma relevância: toda a equipa técnica e artística envolve-se numa performance que reinveste de luta, de imagem e de corpo o espírito daqueles homens, mulheres e ecossistemas. Trata-se, assim, de uma tentativa de reviver – e reavivar – os gestos coletivos, transgressores, resilientes, atribuindo-lhe um olhar, que é o da câmara, e uma coreografia, que é o dos atores e atrizes. “Se se caminhar direito, colocando primeiro o calcanhar no chão, imediatamente se escorrega e cai nas represas dos campos de arroz alagados ou se fica preso na lama dos mangues”, revelam as diretoras. 

Mangrove School, de Filipa César e Sónia Vaz Borges. © Direitos Reservados

Numa costura atenta e minuciosa – que parece alargar os horizontes temporais do filme sem, no entanto, torná-lo enfadonho – das interações viáveis entre humano, animal e tarafe, como os enclausurados de Buñuel n’O Anjo Exterminador que se libertam ao conquistarem a repetição das suas ações e dizeres, redescobrem-se as memórias e os movimentos aprendidos, emprestados de outros tempos e ainda urgentes no agora. É este, também, o convite político audacioso do filme de Filipa César e Sónia Vaz Borges: que o cinema possa contribuir para o resgate e o fortalecimento de redes colaborativas e criativas, respostas aos desafios presentes – ainda coloniais – de uma Guiné Bissau com um gravíssimo índice de crianças fora do sistema escolar e entre os países com menor PIB per capita do mundo (Banco Mundial, 2018).

Eleito como o lugar para esta utopia passada e futura, o mangue — e a escola — é este território fértil de opacidades, que preserva a vida de todas as espécies; espaço para reparar, lavar e pintar as representações de mundos de longa data, preparando-nos para os mundos por vir. Tentáculos e fantasmas, trazidos de volta à vida pelo cinema, recordam a coragem e a potência de abrigar-se no outro, com o outro. No mangal, rompe-se para aumentar, parte-se para construir — como o lápis de criança que se perde, mas que se reencontra no fracionar do lápis ao lado. Está, aí, a força de Mangrove School, que será novamente exibido no âmbito do Doclisboa a 15 de outubro, na Cinemateca Portuguesa: demonstrar a possibilidade de acréscimos — ou decréscimos — de realidades a partir da corporeificação de novos modos de existir, de ensinar e de aprender.

Laila Algaves Nuñez

Foto em destaque: Mangrove School, de Filipa César e Sónia Vaz Borges. © Direitos Reservados

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