A questão colonial no Doclisboa’22: a curadora Amarante Abramovici apresenta a retrospetiva dedicada a cinemas anticoloniais na 20ª edição do festival

Diante do horror, o que pode o ato de filmar? Que silêncios pode ou não remediar? Foi Jean Louis-Comolli que, ao desfiar as particularidades do cinema documental, afirmou, categoricamente: sob o risco do real, com todas as suas dobras, fissuras, resíduos e escórias, a sua maior obrigação é a de criar. Num jogo contínuo entre o aproximar-se e o esquivar-se das armadilhas do mundo — e, nesse caso, também literalmente da guerra —, a ética poética do documentário faz-se na dança com a estranheza, com a parte maldita, com a parte absurda: com a vida e a morte.

De 6 a 16 de outubro, na 20ª edição do Doclisboa, e integrada na programação da Temporada Portugal-França 2022, uma retrospetiva dedicada à questão colonial rompe com as narrativas abrandadas e embranquecidas dos dois países colonizadores, devolvendo o olhar aos cineastas africanos e, à guerra, o seu nome sinistro e a sua verdade íntima. Com curadoria de Amarante Abramovici, realizadora e programadora de história e ascendência franco-portuguesa, o programa reúne filmes que cobrem um arco temporal de 72 anos, de 1950 a 2022, e que continua a se estender pelo futuro. Passa-se, assim, por toda a Guerra da Argélia e a Guerra Colonial portuguesa, bem como as subsequentes vagas migratórias que, ainda hoje, deixam a sua marca nas comunidades de ambos os territórios.

Se a ideologia colonial perpetra as suas violências a nível material e, mais decisivamente, a nível espiritual, os filmes d’A Questão Colonial resistem, também, à lógica da dominação corpórea e criativa. Realizados “contra a corrente do sistema colonial e neocolonial”, mas sobretudo “contra o mercado dos filmes ou dos autores”, representam a “luta pela existência dos novos cinemas africanos e transcontinentais”, descreve Abramovici em entrevista à Temporada. As mesmas redes coletivas de solidariedade que, no passado, permitiram que muitas destas obras fossem possíveis repetem-se, hoje, para permitir que estas histórias continuem a ser vistas e ouvidas, em toda a sua diversidade de gestos e formas.

Motivada pela busca de uma “outra” história do cinema, “que começa quando a liberdade se conquista”, a curadora apresenta-nos os itinerários de Cabascabo (1969), o primeiro filme do nigeriano Oumarou Ganda – depois de ser fuzileiro na Guerra da Indochina, estivador no porto de Abidjan, na Costa do Marfim, e ator em Moi, un Noir (1957), de Jean Rouch –; a grande festividade do Carnaval da Vitória (1978), realizado pelo angolano António Ole no primeiro ano da independência do país; ou, ainda, Mueda, Memória e Massacre (1979) e Os Comprometidos – Actas de um Processo de Descolonização [Acta 5] (1985), de Ruy Guerra, um dos criadores do cinejornal Kuxa Kanema (O Nascimento do Cinema) em Moçambique, devotados a filmar a nova imagem, ferida e contraditória, do povo, com o povo e para o povo.

Trata-se, portanto, de ir ao encontro de cinematografias por muito tempo relegadas à clandestinidade e ao silenciamento, cujos esforços, antes de mais, precisavam furar a dura censura do Estado Novo português ou da lei Laval em França. É o caso de Afrique 50 (1950), que valeu a prisão do realizador francês René Vautier, ou Catembe (1965), de Manuel Faria de Almeida, “que partia de uma encomenda, mas acabou por se tornar o filme português mais ‘cortado’ pelos censores”, com 103 cortes e menção no Guiness, conta-nos Abramovici. Outras formas de censura, porém, seguem-se ao controlo político estatal: o desamparo económico, a falta de recursos para preservação e a carência de práticas de arquivamento. 

Mangroove School, de Sónia Vaz Borges e Filipa César. © Direitos Reservados

Nesse sentido, como pontua a curadora, é emblemática “a exibição de Nossa Terra, o filme realizado por Mário Marret nas zonas libertadas da guerrilha do PAIGC, desaparecido durante décadas e só agora reencontrado nos arquivos da Newsreel em Nova Iorque”. A curta-metragem, que data de 1960, é integrada em sessão conjunta com trabalhos de Sónia Vaz Borges e Filipa César, “cuja criação se vêm articulando com o resgaste de filmes perdidos do início do cinema da Guiné-Bissau, como é o caso da seminal obra colectiva O Regresso de Amílcar Cabral, ou dos registos das escolas-piloto mostrados em Navigating the Pilot School“, obra de 2016. Neste movimento de des-re-construir e reflorestar os imaginários europeus do passado e do presente, “A Questão Colonial” não se esquiva de assumir e pensar a responsabilidade de todas e todos os “cineastas, técnicos, arquivistas, programadores, críticos e espetadores, em todas as sessões e todos os debates, em todos os momentos em que os filmes acontecem”, de manter vivas estas obras – e estas lutas. Como adivinha 7 cortes de cabelo no Congo (2022), dos brasileiros Luciana Bezerra, Pedro Rossi e Gustavo Melo, ou Afrique sur Seine (1955), de Paulin Soumanou Vieyra e Mamadou Sarr, Amarante Abramovici sonha com um cinema internacionalista, que “atravessa tempos e oceanos”, e cuja promessa depende da abolição de uma Europa ainda “fortaleza, envelhecida e decadente”, que condena “a humanidade à repetição dos mesmos erros”. 

Laila Algaves Nuñez

Foto em destaque: Catembe, de Manuel Faria de Almeida. © Direitos Reservados

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