A Questão Colonial, Cinema Marginal e 13 estreias mundiais no DocLisboa 2022

Entre os dias 6 e 16 de Outubro, o cinema documental invade as salas de cinema da capital pelas mãos do DocLisboa. Com a programação dividida entre a Culturgest, o Cinema São Jorge, a Cinemateca Portuguesa e o Cinema Ideal, o Festival, que celebra este ano a sua 20.ª edição, comemora o Cinema Brasileiro numa retrospectiva do cineasta Carlos Reichenbach; reflete, a partir da obra de realizadores africanos e europeus, A Questão Colonial; e conta, ainda, com várias estreias mundiais.

A Questão Colonial em foco na Cinemateca Portuguesa

Flora Gomes, Abderrahmane Sissako, Ousmane Sembène, Asdrúbal Rebelo, António Ole… São apenas alguns dos realizadores que recebem o destaque nesta Retrospectiva que tem como ponto de partida o fim de uma guerra – a da Argélia – e o subsequente início de outra, a Guerra Colonial travada pelo Estado Novo português. A recontextualização das imagens das coleções coloniais que, até ao aparecimento dos “cinemas africanos” eram compostos sobretudo por filmes encomendados para fins de propaganda nacional e internacional e que, maioritariamente, faziam o percurso Colónia-Metrópole, era essencial. 

Partindo, então, da necessidade de se reajustar o olhar para esta materialidade de arquivo, e da inevitabilidade de, com o aparecimento de cineastas africanos que resignificaram a imagem audiovisual, com um olhar confrontacional às “narrativas benignas” (a Guerra da Argélia era apelidada de um simple évènement) impostas pelos países europeus, neste caso, Portugal e França, Amarante Abramovici faz está curadoria integrada na Temporada Portugal-França 2022. A Retrospectiva convoca testemunhos directos: da Guiné-Bissau, Flora Gomes, José Bolama, Josefina Crato, Sana N’Hada; do conjunto de realizadores radicados em França, Mamadou Sarr, Paulin Soumanou Vieyra e Ousmane Sembène, dos angolanos Asdrúbal Rebelo e António Ole, do mauritano Abderrahmane Sissako… Nesta Retrospectiva cabem os olhares destes e vários outros realizadores que moldaram o cinema africano, oferecendo um novo ponto-de vista sobre A Questão Colonial.

“Eu costumo dizer que o cinema feito por nós, guineenses, começou quando nós começámos a filmar. Quando nós chegámos de Cuba, nós: a Josefina Crato, o José Bolama, o Flora e eu. Nós chegamos a Conacri a 7 de Janeiro de 1972. Havia guerra. Nós tínhamos saído da guerra, ido a Cuba e voltámos para a guerra.” (Entrevista de Catarina Laranjeiro a Sana N’Hada, Berlim, Junho de 2015)

O Cinema Marginal de Carlos Reichenbach

Também na Cinemateca Portuguesa, outra Retrospectiva. Desta feita, um apanhado da obra de Carlos Reichenbach, cineasta natural de Porto Alegre que fez das ruas de São Paulo a casa do seu Cinema – um Cinema Marginal que partilhou com realizadores como Ozualdo Candeias, Andrea Tonacci, Rogério Sganzerla ou Júlio Bressane. 

Rompendo com a tradição do Cinema Novo, o Cinema Marginal (ou Cinema de Invenção ou, ainda Udigrúdi), fortemente associado ao movimento revolucionário e ao tropicalismo, procurava um diálogo intertextual com o classicismo narrativo de Hollywood. Numa época altamente marcada pela ditadura brasileira, onde a censura reinava, o Cinema Marginal de Carlos Reichenbach mostrava inventividade e um arrojo sem-igual, onde o melodrama, o pornográfico e o experimental cantavam o sonho e o desejo. Entre mais de uma dezena de longas-metragens, onde se incluem filmes como Liliana M: Relatório Confidencial, As Libertinas ou Amor, a Palavra Prostituta, e várias curtas, a obra de Carlos Reichenbach é aqui explorada sem amarras ou constrições.

As Libertinas, de Carlos Reichenbach © DocLisboa

13 estreias mundiais nas Competições 

Cobertas as retrospectivas, foquemo-nos nas Competições Nacional e Internacional que, este ano, contam com, ao todo, 13 estreias mundiais. Na Competição Internacional, A Landscaped Area Too Quiet for Me, de Alejandro Vázquez San Miguel (Espanha), Moto, de Gastón Sahajdacny (Argentina), A Date in Minsk, de Nikita Lavretski (Belarus),  I Saw, de Vadim Kostrov (Rússia) e Such a Long March, de Dominique Loreau (Bélgica) traçam as estreias mundiais numa viagem que parte da Argentina e aterra na Rússia, juntando-se a elas It’s Party Time, de Léo Liotard (Bélgica), Se’-back, de Shichiri Kei (Japão, a única entrada da Ásia), Elfriede Jelinek – Language Unleashed, de Claudia Müller (Alemanha) e 100 Ways to Cross the Border, de Amber Bemak (EUA). 

Já na Competição Nacional, uma mescla de temas que vão desde a crise da habitação e a descaracterização que tem assolado a cidade de Lisboa, à vida secreta de uma artista pouco conhecida, e profundos exercícios de memória. Compõem as estreias mundiais a co-produção luso-uruguaia de  Maria Simões e Tiago Melo Bento, Luana, May the Earth Become the Sky, de  Ana Vîjdea (Portugal, Hungria, Bélgica), A Ilha, de Mónica de Miranda, o regresso de Leonardo Mouramateus com Vexations, Silêncios, de César Pedro (Portugal, Angola), A Casa da Rosa, de ​​Rosa Coutinho Cabral, A Morte de uma Cidade, de João Rosas, Ultimate Bliss, de Miguel de Jesus (co-produção com a Austrália). Juntam-se a estes filmes Olho Animal, de Maxime Martinot (co-produção franco-lusófona), A Visita e um Jardim Secreto, de Irene M. Borrego (Espanha, Portugal), Memória, de Welket Bungué (Brasil, Guiné-Bissau, Portugal) e Terra que Marca, de Raul Domingos.

Da Terra à Lua aos Verdes Anos: uma viagem pelas secções do DocLisboa

Dentro das secções já conhecidas do DocLisboa, figura-se também uma programação que traz à baila nomes sonantes do Documentário mundial. Na secção Da Terra à Lua, a Trilogia de Vincent Carreli sobre as comunidades ameríndias; o regresso de Werner Herzog com a longa-metragem The Fire Within: Requiem for Katia and Maurice Krafft, co-produção entre os Estados Unidos, a França, o Reino Unido e a Suíça que celebra o legado dos vulcanólogos e cineastas Katia e Maurice Krafft, e o mais recente filme de Fredrick Wiseman que traz para o ecrã Un Couple, filme-monólogo que narra, a partir das cartas trocadas ao longo de 36 anos de casamento, a relação entre Lev e Sofia Tólstoi. 

Un Couple, de Fredrick Wiseman © DocLisboa

Em Heart Beats, os traços de  João Ayres por Diogo Varela da Silva, e a Pina Bausch pela lente atenta de Florian Heinzen-Ziob, que filma os ensaios de A Sagração da Primavera. O que Podem as Palavras, de Luísa Marinho e Luísa Sequeira traça a história de As Novas Cartas Portuguesas e Still Working 9 to 5, de Camille Hardman e Gary Lane analisa as desigualdades no trabalho através do ativismo de Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton.

Ana Carolina Soares e Éric Baudellaire são os convidados da secção Riscos, que expõe “a vertigem de um cinema que arrisca, questiona as suas fronteiras e relaciona a sua história com o seu futuro”. Quatro curtas-metragens de Želimir Žilnik (cujo cinema já teve uma retrospectiva  no festival em 2015) compõem também esta programação, juntamente com o documentário de Laurent Achard, sobre Saturn Bowling, de Patricia Mazuy (montadora de Agnès Varda), também presente na secção. Onde Fica Esta Rua? ou Sem Antes nem Depois marca o regresso da dupla João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata ao festival numa ode a Os Verdes Anos de Paulo Rocha, numa exploração de uma cidade que, no fundo, já não existe.

Onde Fica Esta Rua? ou sem Antes nem Depois © Terratreme

Como não podia faltar, fechamos as secções com Verdes Anos, que acompanha obras de realizadores emergentes de toda a Europa. São oito filmes portugueses em mostra, incluindo os competidores ao Prémio Fernando Lopes, CANAL44, de Tiago Bastos Nunes, Bentuguês, de Daniel Borga, Originalmente Verão, de Bianca Dias, Febre Postal, de Vasco Vasconcelos, Flores Para o Meu Pai, de Luís Afonso Matos, e Home, Revised, de Inês Pedrosa e Melo. Entradas de França, Polónia, Eslováquia, Bélgica, Espanha, Suíça, Alemanha, Húngria e Itália também fazem parte da programação. A sessão de abertura desta secção (dia 9 de outubro no Cinema São Jorge) conta com os filmes Fiesta Forever, de Jorge Jácome (2016), Manhã de Santo António, de João Pedro Rodrigues (2012) e A Soft Hiss of This World, de Federico Cammarata e Filippo Foscarini (Itália, 2022).

Cinema de Urgência a olhar pelo Futuro

Desde, 2015, a secção Cinema de Urgência integra o DocLisboa com o objectivo de “​documentar e testemunhar situações e acontecimentos relativamente aos quais é urgente criar uma comunidade de debate, de reflexão, de modo a que nos possamos posicionar”. Este ano, o Cinema de Urgência foca-se na vida de jovens que ou se encontram em zonas ocupadas ou em campos de refugiados.

Uma Nova Narrativa Para a Ucrânia é uma mostra de 46 filmes feitos por jovens que nos mostram como se vive numa zona em conflito (os jovens são oriundos de Carquive, Mariupol, Severodonetsk, Sloviansk e outras cidades da Ucrânia ocupadas pela Rússia desde 2014) inventando formas de comunicar os seus medos, as suas saudades, os seus sonhos, buscando construir novas narrativas sobre o Futuro. À sessão, que terá lugar no dia 10 de outubro no Cinema São Jorge, seguir-se-á uma conversa via Zoom com Chris Schuepp (da One Minutes Jr., que realiza oficinas com os jovens) e de realizadores dos filmes exibidos.

No dia seguinte, também no Cinema São Jorge, há a mostra Campo Aberto,onde  crianças e jovens que vivem em campos de refugiados de Katsikas, Lesbos e Thermopylae, na Grécia, recriam as histórias de vida delas e das famílias através de filmes de animação: a travessia de quatro países até se chegar ao destino final, a Grécia, o bombardeamento de uma escola, as noites de verão na Terra Natal. Aqui também se seguirá uma conversa  com a presença de Fausta Pereira (Open Camp) e Ghalia Taki (coordenadora da Bolsa de Intérpretes do Serviço Jesuíta aos Refugiados), participação via Zoom de Carlos Pastor (Open Camp) e Tahereh Rezaee e moderação de Cristina Mai Len.

Tanto numa como noutra sessão, sobressai a realidade implicada – uma realidade distante mas que cada vez mais se torna próxima através das redes sociais e dos meios alternativos. O Cinema Urgente acaba, assim, por preencher uma lacuna existente nos media tradicionais, oferecendo um olhar real a estas situações tão pulsantes, tal como elas são. 

Kenia Pollheim

[Foto em destaque: Morte Nega, de Flora Gomes © DocLisboa]

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