Medusa, Maria Madalena, Monstro e Mulher num Brasil à beira do horror

“Nós, homens, somos relaxados. Mulher, não.  sempre se limpando. Nós, homens, jogamos uma cerveja no piu-piu e  limpo”. “A mulher nasceu para ser mãe, é o papel mais especial da mulher”. “Chegou a nossa hora: é o momento da Igreja ocupar a nação. É o momento da Igreja dizer à nação a que viemos. É o momento da Igreja governar”. Poderiam ser trechos retirados integralmente do roteiro de Medusa, de Anita Rocha da Silveira, em desenvolvimento desde 2015. Mas não são. Tratam-se de frases proferidas publicamente, entre maio de 2016 e abril de 2018, por Jair Bolsonaro, atual Presidente do Brasil, e Damara Alves, ex-Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos durante o seu governo.  
            Numa realidade não-tão-distópica e não-tão-futura, a segunda longa-metragem da realizadora brasileira — apresentada em estreia mundial na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, no ano passado, e em estreia nacional no IndieLisboa 2022 — prenuncia um Estado ditatorial cristão-fascista, no qual os únicos beijos autorizados são aqueles entre a religião e o militarismo. Durante o dia, um grupo de jovens evangélicas cantam louvores ao Senhor e aclamam um sedutor pastor-político. À noite, assumem a missão de açoitar e humilhar qualquer mulher que considerem “impura”, “pervertida” ou “destruidora de lares”, coagindo-lhes a filiar-se à Igreja e afixando os seus testemunhos, em vídeo, nas redes sociais. Neste tempo quase presente, não há qualquer brecha para a dúvida, para a feiura, para a ameaça do prazer e do desejo — tema que se afirma na cinematografia de Anita desde o premiado Mate-me por favor (2015). Não há carnavais, apenas sextas-feiras Santas. Medusa continua a ser insistente e severamente punida por Atena, a deusa virgem de uma civilização que teme, aprisiona e aniquila os seus monstros.

Medusa, de Anita Rocha da Silveira © Best Friends Forever

O filme segue a ruína de Mari Oliveira — personagem que partilha o mesmo nome com a atriz que a interpreta —, boa-moça devota, que se esforça para alcançar o ideal de filha e esposa construído e alimentado pela Igreja. Certa noite, porém, uma das mulheres “libertinas”, alvo do ataque evangelizador da jovem, responde ao seu golpe e fere-lhe o rosto. O corte será a sua primeira e discreta abertura ao real, ao sangue, aos avessos irrevogáveis de um corpo até então pretendido sempre limpo, sempre puro, sempre belo. Será o início da sua transfiguração em monstro – esta figura cuja essência etimológica é, justamente, o ato de mostrar (do latim monstrare). 
            “Ao revelar o que deve permanecer oculto, o corpo monstruoso subverte a mais sagrada das relações entre a alma e o corpo: a alma revelada deixa de ser uma alma, torna-se, no sentido próprio, o reverso do corpo, um outro corpo, mas amorfo e horrível, um não-corpo” [1] (aspas nossas). O apelo à imagem do monstro, portanto, para além de lançar luz sobre o disfarçado vínculo entre a estética e uma estratégia política fascista e castradora – questão explorada, ainda, através da cenografia plástica, quase irreal, que compõe as cenas dos cultos religiosos –, significa a ruptura de qualquer domínio da transcendentalidade sobre o corpo próprio. Em outras palavras, acena para o aguçar da carne, para o arrepiar dos cachos insubordinados e o excitar dos gozos recalcados, desautorizados – que jamais deixam, realmente, de teimar em aparecer.

Medusa, de Anita Rocha da Silveira © Best Friends Forever

Mas os monstros, neste filme, também usam máscaras, como quem diz que o reverso de um suposto real risonho e límpido só se mostra, verdadeiramente, quando esconde a face. Numa comunidade cristã, benévola e (de) direita, é o vestir de uma máscara branca e angelical que consagra a barbaridade e a violência das noites de perseguição de mulheres contra mulheres. Da mesma forma, é sob fantasias de animais que aqueles jovens ainda em busca de uma liberdade rebelde se encontram e se divertem em festas clandestinas. Tudo o que é criatura, fantástico e assombroso é capaz de subverter o mandamento da ordem e do progresso. 
            É por isso que a Medusa de Anita Rocha da Silveira não petrifica, desperta; e não pelo olhar, pelo berro. “Eu vi o Demónio e ele é uma mulher”, confessa, desesperada, uma das fiéis da Igreja. É claro: apenas a força contida de uma mulher pode torná-la monstro. E apenas a força contida de uma mulher pode romper o mais profundo, longo e constrangedor silêncio que paira sobre o Brasil, hoje. Contra políticas que infantilizam o abuso e legitimam a misoginia; contra a indiferença de um presidente que assiste a tudo que é vida morrer, sem sequer prestar uma nota de rodapé; o mais estridente grito, a convocar todos os gritos em uníssono. 

Laila Algaves Nuñez

[1] Gil, José. (2006). Monstros. Lisboa: Relógio D’Água Editores, p. 79. 

[Foto em destaque: Medusa, de Anita Rocha da Silveira © Best Friends Forever]

Texto escrito em português do Brasil.

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